Outro dia, a Cássia - mi pelada - me trouxe outra revista Cult, dessa vez tendo como matéria principal "a invasão da literatura pelos relatos do cárcere". Claro que não há nenhuma novidade no assunto, mas o que me espanta é a total incapacidade da intelligentzia de chegar a uma visão clara do fato. Em primeiro lugar é totalmente inútil discutir se os caras têm ou não o direito de se considerarem escritores. Hoje em dia, em meio a essa perene "crise de valores", até minha sobrinha que acabou de aprender a assinar o nome pode, infelizmente, ser considerada escritora. Escritor é praticamente sinônimo de escriba. Se alguém escreveu um texto do tamanho necessário a compor uma brochura, pronto, é escritor. Tem um blog? é escritor. Logo, para resolver a questão, deve-se partir do princípio de que o que interessa é a qualidade do que se escreve, não a origem pessoal da "vontade de escrever". Se Dostoiévski e Graciliano Ramos já eram escritores antes de experimentarem o cárcere, Jean Genet - que nunca li e que minha intuição, não sei por quê, diz para ainda não o ler - tornou-se escritor na prisão. Ora, dirão, a qualidade é um fator subjetivo. Não acho. Falar assim é atribuir um caráter relativo à "qualidade literária", o que iria totalmente contra o conceito de "literatura universal", ou seja, a literatura que traz, em si, a possibilidade de "tocar" - do modo mais profundo - a todos nós.
Pois é, na revista vemos uma discussão entre os que dizem ser a "literatura dos presos" mero relato, documento, e os que afirmam ser ela uma nova vertente da literatura brasileira. (É por essas e outras que, em geral, tenho aversão a ler essas matérias.) Não sei mais quem disse isso, mas literatura é aquilo que se escreve, com um estilo pessoal, numa busca paradoxal do que está além das palavras: a Vida. E o estilo, claro, é o próprio homem, a própria personalidade do escritor. Gosta-se de um autor como quem passa a gostar de uma pessoa qualquer, tornando-se amigo dela. É um fenômeno supra-racional. A gente tem sempre um amigo do qual se gosta por mais estranho e freak que ele seja. Gosto muitíssimo, por exemplo, do
Ruben Fonseca. No entanto, se eu o encontrasse, lhe diria: nossa, cara, você escreve bem pra caralho, tem um domínio genial da narrativa, mas vai ser atraído pela escrotidão assim lá na casa do capeta... (Ao menos ele é o único a captar e expressar a verdadeira natureza dos criminosos e da violência, sem essa babaquice de "justiça social". Seus criminosos são escrotos e ponto final, tal como os reais.) Isso quer dizer o seguinte: existe uma hierarquia, um cânone pessoal a ser elaborado - gosto mais desse, depois desse, desse e desse, etc. Não li, por exemplo, outros textos do tal Luiz Alberto Mendes (detido na Penitenciária II de Serra Azul), mas apenas seu conto "Cela Forte", que se encontra na Cult. Portanto só posso falar a partir desse texto, que é, na minha opinião, não apenas trivial mas... escroto. O narrador parece muito gente boa, mas fica o tempo todo sem saber por que o estão maltratando daquele jeito - de forma realmente terrível - para descobrir, ao final, que é apenas porque havia matado um colega de cela. "Legítima defesa", diz ele, e poderia ser mesmo. Mas vai ser alienado assim lá naquele lugar, vai ser incapaz de ligar causa a efeito lá na... prisão. E o problema é o seguinte: como ele escreve direitinho, dão a seu relato o status de literatura. Ou pelo menos o benefício da dúvida: "pode ser literatura". Que seja, pouco importa, mas não é das grandes, já que não há uma mínima observação de valor ali, não há nada que pareça vir de cima - como em Graciliano Ramos - mas apenas dos lados: é como o programa Linha Direta, pura denúncia de maus tratos. É a experiência pessoal dele? Se for, pior ainda, o alienado não é o personagem mas o autor. É ficção? Então é trivial, literalmente sem graça. (Repito: falo desse texto, não acho improvável que seus outros livros sejam bons. Eu mesmo seria arrasado caso um dos meus contos idiotas caísse nas mãos de um crítico afinado com o ofício.) Aliás, a única coisa que se salva é a descrição da Internet que havia na solitária da Penitenciária do Estado de SP em 1973! Internet dos presos!! Cada cela tinha uma privada ("boca de boi") que, sem a água, servia para conversar com as outras celas - inclusive as do andar de cima -, uma vez que todas se conectavam com uma única caixa de esgoto, a qual promovia a ressonância. Dava até pra fazer download!! Sim, de cigarros, sabonete, drogas, etc. Bastava jogar uma linha para "pescar" as demais linhas com as mercadorias nelas amarradas. E o cheiro, ó!! (Atenção: essa analogia com a Internet é minha, ele não se atreveu a percebê-la.)
Por outro lado, um texto da mais alta qualidade - na minha opinião - é a letra da música "Tô ouvindo alguém me chamar", do Mano Brown (Racionais MC's). Tentei ler como poema ou conto, mas não funciona, perde o efeito: é, de fato, pura literatura oral. E absurdamente genial. Você assiste a um filme dentro da própria cabeça. As palavras estão todas no lugar, perfeitas. E o efeito é chocante: é como uma tragédia grega, com a diferença de que o drama "não imita personalidades ilustres", mas um bandido. Dá de dez a zero no conto "Feliz ano novo", do Ruben Fonseca, que, ao contrário da primeira, funciona como conto, mas é tremendamente amoral e escrota. "Feliz ano novo" é do mal. "Estou ouvindo alguém me chamar" é do bem sobre um cara no mal. Quem não conhece essa música, deve procurá-la agora. Não sabe o que está perdendo. (Não se engane, sou fissurado no Rubem Fonseca, de quem já devorei mais de vinte livros.)
Falando dos Racionais, a Cult também cita Jocenir - autor de Diário de um detento (ótima letra) -, Hosmany Ramos e outros. Eu precisaria ler esses caras pra dizer se valem a pena. Mas a literatura é, na minha vida, uma forma de expressão, não meu interesse principal. Eu só acho que a intelligentzia deveria parar com essa mania de usar como critério de valor a importância social da literatura e da arte. Quanto mais política, quanto mais militante, quanto mais grave for a denúncia, para ela, mais elevada é a obra. E isso é ridículo. Também não acho que o critério deva ser totalmente estético. Como já disse, a literatura deve tratar da Vida, e não de interesses puramente contingentes. Se a narrativa se passa no tempo, a visão do autor deve estar acima dele. E o conto do Luiz Alberto Mendes - leitor assumido e "apaixonado" de Sartre, Marcuse, Gramsci e porcarias semelhantes - não chega aos pés da literatura oral do Mano Brown. Aliás, espero que este não deixe a política interferir em suas criações futuras. Seria a vitória do totalitarismo - a politização de todas as relações humanas - sobre a alma dos nossos manos das periferias. Deus te guie, Mano Brown.
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