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Abrir o jornal ou ligar a TV após a novela: que pode haver que nos cause tantas tristezas de tabela? Não há nem como nos refugiar num pretenso "eu não me engano, só sei acertar!". Nossa consciência adora o sono, mesmo que seja o sono de sonhar que só os outros erram. Tô de saco cheio das mentiras da política, dos secularistas, dos terráqueos que se melam. Nessas horas, tomando da vida safanões, e com as mãos da mente amarradas às costas, só nos resta indagar: quem enfim algo acerta, ó meu caro Camões?
p.s.: nada escreva após o vinho...
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Mundo, se te conhecemos,
porque tanto desejamos
teus enganos?
E, se assi te queremos,
mui sem causa nos queixamos
de teus danos.
Tu não enganas ninguém,
pois a quem te desejar
vamos que danas;
se te querem qual te vem,
se se querem enganar,
ninguém enganas.
Vejam-se os bens que tiveram
os que mais em alcançar-te
se esmeraram;
que uns, vivendo, não viveram,
e os outros, só com deixar-te,
descansaram.
E se esta tão clara fé
te aclara teus enganos,
desengana;
sobejamente mal vê
quem, com tantos desenganos,
se engana
Mas como tu sempre mores
no engano em que andamos
e que vemos,
não cremos o que tu podes,
senão o que desejamos
e queremos.
Nada te pode estimar
quem bem quiser estimar-te
e conhecer-te;
que em te perder ou ganhar,
o mais seguro ganhar-te
é perder-te.
E quem em ti determina
descanso poder achar,
saiba que erra;
que sendo a alma divina,
não a pode descansar
nada da terra.
Nacemos pera morrer,
morremos pera ter vida,
em ti morrendo.
O mais certo é merecer
nós a vida conhecida,
cá vivendo.
Enfim, mundo, és estalagem
em que pousam nossas vidas
de corrida;
de ti levam de passagem
ser bem ou mal recebidas
na outra vida.
(Camões, o rei dos outsiders.)
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