Quando vejo o que esses grupos pacifistas são capazes de fazer, fico com mais medo deles do que dessa viagem de que os americanos são um sem-terra de olho na Amazônia. Me borro de paranóia de ir à padaria e dar de cara com uma massa de pacifistas protestando, cheios de bandeiras azul-branco-vermelhas pegando fogo, outras com foices e martelos, aquele olhar cheio de rancor, fazendo vodu com o boneco do Bush. Elias Canetti tinha razão, a massa é um terror, é uma besta de sete mil cabeças, e por mais gente boa que você seja, uma vez no meio dela, não tem mais controle de si: vai para onde o resto do enorme corpo lhe arrastar. A massa se deixa levar por emoções fortes, sejam lá quais forem, nenhuma lucidez pode com elas. Sempre que vejo a forma como se dão tais protestos, lembro-me do que dizia Krishnamurti: "sois todos violentos". Basta estar na hora errada, no lugar errado e...
Não, não sou a favor de nenhuma guerra, nem dos homens de estado que a fomentam, seja ele um cara eleito democraticamente como o Bush (sim, eleito! eleito!), seja um ditador genocida como o Saddam. (Aliás, que vergonha ver o Brasil querendo dar asilo a um cara desses sem nem ao menos ser solicitado.) Só que a guerra é uma extensão da política e, apesar da loucura coletiva que efetivamente é, sempre será corolário da crença de que a política e o Estado podem resolver os problemas humanos essenciais. De vez em quando me lembro do livro do escritor russo Soljenitsin - Carta ao Ocidente - e penso se o Bush não estaria realizando o sonho de alguns milhares de iraquianos que teriam rezado pela vinda da Cavalaria. Soljenitsin conta como os presos políticos do regime soviético ficavam ansiosos esperando uma intervenção americana que salvasse não apenas eles mas todo o povo russo da tirania comunista. Mas tal coisa, para desespero de milhares de almas oprimidas, jamais aconteceu. Em outro livro - Por dentro do Terceiro Reich -, Albert Speer, o arquiteto de Hitler, conta como os prisioneiros de guerra nazistas ficavam excitados ao ouvir as notícias das relações entre americanos e soviéticos. Achavam que os americanos tomariam Moscou em pouco tempo e, em seguida, marchariam até Pequim. Mas os americanos redemocratizaram seus antigos inimigos, ajudando-os a alcançar a prosperidade que hoje invejamos, seja da Itália, da Alemanha ou do Japão. Não viam o mundo como os nazistas. Hoje, quando vejo o presidente Bush, não sou invadido pela ira da massa e fico enxergando um Hitler na minha TV. Acredito, sim, que ele, Bush, vê o Saddam como um Hitler do Oriente Médio - o Kuwait foi sua Polônia, os curdos e xiitas seu holocausto - e acredite estar cerceando sua ação maléfica, mostrando que aprendeu com a história, já que Hitler só teve tempo de se armar - para vergonha dos pacifistas da época - graças aos acordos de paz assinados com a Inglaterra e a URSS. (Um pacifista irado me dirá que as razões da guerra são econômicas e eu contestarei: qual guerra não tem suas motivações econômicas? As próprias guerras civis e demais guerrilhas comunistas também não visavam "simplesmente" modificar os "meios e modos de produção"? Isto não é economia?) É uma carga de responsabilidade imponderável um presidente tomar tal decisão em suas próprias mãos. Já dizia o Homem: "o escândalo
é necessário; ai, porém, dos que se comprazem com ele". Eu não queria estar na pele do Bush mais do que na do Saddam. Deus me livre. Só que muito mais medo eu teria é de estar na pele de alguém que, frente a uma dessas massas "pacíficas", gritasse tudo o que estou escrevendo. Ai de mim.
Acreditem, amigos, muito melhor seria para o mundo se esses supostos pacifistas - sei que não são todos desse jeito, alguns ainda colocam flores mentais nas armas da polícia, mas, enfim - muito melhor seria se acessassem o site Pray Time Calculator - que não é da Tabajara, mas da Al Jazirah - e, descobrindo os horários de prece iraquianos, orassem junto com essa gente. A Paz que nos foi deixada - e única plenamente acessível - é de outra índole.
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