Lygia Fagundes | Em fevereiro deste ano, finalmente me encontrei cara a cara com a excelente Lygia Fagundes Telles. Desde 1998 que vínhamos nos falando ao telefone, já que, naquele ano, eu me mudara pra casa da escritora Hilda Hilst, sua amiga das antigas. Sempre que a Lygia fazia uma de suas esporádicas visitas à Hilda, eu estava em alguma balada em São Paulo, Brasília ou no litoral norte. Nunca nos víamos. Era uma coisa estranha, tipo "Feitiço de Áquila". Acho até que ela pensava em mim como um amigo imaginário da Hilda... que tinha voz ao telefone... (Coisa mais esquisita!) Aliás, o mais provável é que só atentasse na minha existência quando falávamos ao telefone, já que tem coisas infinitamente melhores pra fazer, tipo escrever livros, ler, planejar palestras ou comer uns bolinhos na Academia Brasileira de Letras...
"Ser escritor nesse país é um cu mesmo", palavras não dela, mas da Hilda ou minhas, sei lá, talvez de alguns milhares de escritores brasileiros, iniciantes ou consagrados. É, não basta escrever, é preciso sobreviver, tem que ser professor, acadêmico, agüentar alunos, politiqueiros (argh!), ou ser funcionário público, burocrata. (Será que o Henry Miller foi mesmo coveiro?) Claro, fora isso só resta ser o Paulo Coelho ou roteirista da Globo, escrevendo umas coisas... Normais, cômicas. Enfim, nada mais engraçado - ou assustador - do que passar uma tarde com uma escritora de renome, em seu apê nos Jardins, ouvindo de sua boca os mesmos lamentos financeiros, editoriais e disciplinares que eu próprio havia feito, naquela manhã, à minha namorada. "Será que serei o mesmo insatisfeito de sempre?", indagava a meus zíperes, enquanto ia virando taças e taças de um saboroso vinho californiano. Dali a instantes, chega uma amiga comum de Lygia e Hilda, uma dessas senhoras dos Jardins, chique, simpática e doce, mas com um ar de "ai, São Paulo já era". Desce o vinho, descem os tais biscoitos amanteigados, e eu lá, ouvindo as últimas novidades - pra não dizer fofocas, termo pouco elegante, nada condizente com aquelas duas - ouvindo as últimas novidades da tchurma. Aliás, você vai ver, e eu também, quando tivermos mais de setenta anos, as novidades da tchurma serão mais ou menos assim: "sabe o sicrano?" "sei" "pois é, morreu". E então vem sua lista de amigos, admiradores e amantes, as filhas de mil e um empresários tradicionais, tipo dono do Biotônico, do Estadão, da Emulsão de Scott, das Pastilhas Valda, do Chiclete Adams, do sabonete Eucalol (!), essas coisas dos anos dourados. Aí você se lembra que mulher, escritora ou não, colar de pérola ou piercing, é tudo mulher mesmo, graças a Deus, e você (eu) se intromete, faz comentários irônicos, tira um sarrinho. E as duas lá, às vezes reagindo com risos, com chistes, às vezes te olhando com cara de "ih, o vinho tá batendo". E a Lygia, por sinal, como já me dizia o Tolentino, é toda simpática, papo envolvente, cheia de sorrisos, ainda bonita, vaidosa, com lenços no pescoço e penteados. Conversamos sobre a vida, sobre literatura, sobre cinema, sobre seu falecido marido, Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, com quem escreveu "Capitu", um roteiro adaptado de "Dom Casmurro", do qual retira um exemplar da estante, autografa e me presenteia. Pra não ficar atrás, eu, aproveitando a ocasião, saco meu livro da mochila - que também traz um conto que cita Capitu - rabisco uma dedicatória e o dou a ela, fazendo, é claro, um esforcinho para esquecer o fato, afinal, sabe-se lá se irá ler, tô cansado de saber que a Hilda, assim como eu mesmo, raramente - muuuuito raramente - folheia um dos ene livros que ganha. (Dias depois, ao telefone, a Lygia me diz que tenho talento e penso: ponto! Deve ter lido um conto!) Ela então me informa que um amigo será empossado na ABL, o que me lembra minha grande idéia de transformar as reuniões da Academia num "Saia Justa", "Fardão justo" ou "Big Intelectual Brother", botar a velharada cabeça pra conversar, com câmeras e tal, mesmo que só role pela Internet, assunto esse que me esqueço logo em seguida e do qual só me lembrarei na manhã seguinte, de ressaca. E voltamos ao cinema, e ela reclama do diretor que rodou seu roteiro, diz que o cara ignorou todas as importantíssimas referências que haviam feito ao mar: "não tem sequer uma cena de praia no filme!" E eu, me identificando de novo, fico pensando no meu roteiro, no irritante diretor que quer mudar a "estrutura", o final, pensamento esse que me faz encher, desta vez, uma taça com vinho do Porto. (Todos passam por tudo... sempre o mesmo.) Toca o telefone, saio pra olhar o apartamento, admiro os desenhos do "Goffredinho", filho dela, as quinquilharias trazidas de mil e um cantos da Terra, as cartas sobre a mesa, segundo ela, por responder. E falamos dos políticos, de como são todos iguais, claro, sempre rola esse papo, são mesmo, e eu cada vez mais vou achando que, do jeito que o álcool ia vindo, teria de esperar umas três horas ainda pra passar a borracheira. (Engraçado, por que parece que só eu echaba unos tragos? O pior é que, não sendo eu muito de beber, bebia também por cortesia, confirmando assim o que a Lygia não parava de repetir: "Ah, este vinho da Califórnia é uma delícia!" E era mesmo.) Depois, telefonamos pra Hilda, marcamos uma visita da Lygia - que desta vez deveria ir a Campinas comigo, mas não foi, sabe como é, muitos cachorros, os compromissos, a saúde, eu entendo - e, de repente não mais que de repente, no auge do meu estado dionisíaco, a empregada de Lygia anuncia que precisam sair juntas pra fazer as compras do mês - ou não terão mais mantimentos. Lygia pede desculpas e me deixa, juntamente com sua amiga, numa das travessas da Avenida Paulista, trocando as pernas, fazendo força para ser "My fair leido", fino, porque é preciso acompanhar a tal amiga, que não se agüentava com a garrafa de vinho californiano, presente da Lygia, até seu apê. E como sou mesmo um "gentil-homem", ascendente em libra e tal, fiz certo esforço pra figura não perceber que o mais correto seria ELA carregar a garrafa e me acompanhar até o metrô, já que EU, Dioniso, poderia ser atropelado a qualquer momento, assaltado ou pior: poderia tentar agarrar por trás uma dona à força, uma dessas que se abaixam pelos Jardins, saquinho de plástico numa mão, pazinha na outra, recolhendo o cocô do digno cachorrinho. Mas, enfim, fazer o que?, tava mesmo rolando, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, o lançamento do livro de um escritor do qual jamaaaais me lembrarei o nome. E tome mais vinho, "de grátis". Hmm, nem sei como cheguei na estação Consolação do metrô...
Já em casa, releio o que escreveu Lygia n'A Disciplina do Amor:"Na Pérsia, todos os gatos são persas, os gatos e os tapetes. Eu pisava nos grandes tapetes do grande hotel, bebia o vinho dourado e ficava olhando a miniatura tão rica em minúcias do rótulo vermelho-ouro da garrafa, queria uma lupa para ver melhor o príncipe de turbante, tocando um bandolim - era um príncipe ou o poeta Omar Khayyam, bebendo e sonhando no seu jardim? O persa hedonista que fez vibrar minha juventude puritana quando ensinava que é preciso beber e não pensar, beber e esquecer porque amanhã a lua talvez venha nos procurar em vão." Mas depois do transe, como a própria Lygia narra a respeito de sua viagem ao Irã, sempre vem o mundo com suas praças e patíbulos, enforcados e dura realidade. É preciso aterrissar, voltar à luta, porque, como ela também afirma, no mesmo livro:Testemunhar seu tempo - respondi a um jovem que me perguntou qual é a função do escritor. Volto para a minha máquina de escrever e peço a Deus que me ajude." E também eu volto ao teclado, infelizmente, sem o mesmo talento para descrever esse privilegiado encontro.
{moscomment} |