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Leni Riefenstahl PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
11 de setembro de 2003


Leni Riefenstahl
No início desta semana, faleceu Leni Riefenstahl, mais conhecida como a "cineasta de Hitler", a responsável pela direção dos filmes de propaganda do NSDAP (Partido Operário Nacional Socialista Alemão). (Vale lembrar que boa parte de seus filmes podem ser baixados pelo Kazaa, tais como o Comício de Nurenberg e O Triunfo da Vontade, apresentando este último um discurso de Hitler com inopinados apelos ao "amor pela paz", ao "altruísmo" e a uma "sociedade sem classes". Claro, com os ouvintes ideias pra essa lenga-lenga: milhares de jovens estudantes.) Embora Riefenstahl tenha dirigido, após a prisão, outros filmes e, mais recentemente, tenha gasto boa parte do seu tempo filmando tribos africanas (nada mais avesso, diria alguém, a uma suposta nazista), tal rótulo continua sendo sua melhor referência, afinal, o endeusamento da estética (ou das po$$ibilidades de produção), em detrimento da própria consciência, tem seu preço. Películas à parte, antes de 1945, Riefenstahl fez foi muito feio.

Coincidentemente, desde a semana passada, estive lendo as memórias (Erinnerungen) de Albert Speer (1905-1981), arquiteto "de Hitler" (mais tarde Ministro dos Armamentos), cujo título em português é Por dentro do III Reich, aliás, um livro imperdível, escrito com a acuidade de um técnico, que detalha alguns dentre os inúmeros porquês do fracasso nazista, além, é claro, das idiossincrasias insanas do insólito Führer. Mas, no momento, bastam esses parágrafos sobre Lenin Riefenstahl:
Durante os preparativos dos congressos do partido, encontrei-me com uma mulher que já me tinha impressionado, quando eu era estudante: Leni Riefenstahl, estrela ou diretora de filmes relacionados com a montanha e o esqui. Essa mulher tinha sido encarregada por Hitler de filmar os congressos do partido. Sendo a única mulher com um cargo oficial, nos quadros do partido, freqüentemente criticava sua organização, o que quase desencadeava uma revolta contra ela. Segura de si mesma, ela constituía uma provocação aos chefes políticos de um movimento que por tradição era inimigo das mulheres, porquanto a mulher destemida governa, sem rodeios, o mundo masculino, tendo o olhar dirigido aos seus objetivos particulares. Urdiram-se intrigas, contaram-se a Hess casos infamantes a fim de provocar a queda daquela criatura. Mas os ataques cessaram depois do primeiro filme de um congresso do partido, o qual convenceu os corifeus de Hitler da capacidade de Leni Riefenstahl como diretora cinematográfica.

Quando tive contato com ela, Leni tirou de uma carteira um recorte amarelecido de jornal, dizendo-me:
-- Quando, há três anos, o senhor reformou a chefatura regional, recortei sua fotografia, estampada em um jornal, embora não o conhecesse.
Perguntei-lhe, surpreso, qual o motivo daquilo, e ela respondeu:
-- Pensei que o senhor, com essa cabeça, pudesse interpretar um papel em um dos meus filmes.

Albert Speer
Recordo também que as filmagens de uma das reuniões solenes do congresso do partido em 1935 ficaram inutilizadas. Leni Riefenstahl propôs e Hitler ordenou que as cenas se repetissem em estúdio cinematográfico. Em um dos grandes estúdios de Berlim-Johannestal. Utilizei como cenário uma seção das salas do congresso. Streicher, Rosenberg e Frank tiveram de decorar os seus papéis, e quando Hess chegou pediu-se-lhe que fosse o primeiro a aparecer para ser filmado. O lugar-tenente de Hitler, solenemente, levantou o braço, como se estivesse diante dos trinta mil ouvintes do congresso do partido e, com a emoção e dramaticidade que o caracterizavam, começou a falar em direção ao lugar onde aliás não estava Hitler, e adotando a posição de "sentido" disse em alta voz:
-- Meu Führer, eu o saúdo em nome do congresso do partido. O congresso prossegue. Fala o Führer!

Enquanto representava, ele demonstrava uma expressão tão convincente que, a partir daquele momento, eu duvidei da autenticidade dos seus sentimentos. Também os outros três homens, no vazio da sala de filmagem, desempenharam seu papel de maneira ajustada à verdade, demonstrando possuírem dotes de verdadeiros atores.

Sem dúvida eu já admirara a cuidadosa técnica, quando Hitler, por exemplo, ia tateando com freqüência em suas reuniões, até o momento preciso de provocação do primeiro aplauso. Nem por isso eu deixava de reconhecer o elemento demagógico, para o qual eu contribuía com a decoração dos lugares onde se realizavam reuniões mais importantes. Mas, até então, eu estivera convencido da autenticidade dos sentimentos com que os oradores suscitam o entusiamo da massa. Portanto, foi para mim, naquele dia, surpreendente o fato de ver que a arte de enfeitiçamento das massas pudesse ser representada "autenticamente", sem a presença de um público, tal como eu vira no estúdio de Johannestal.
Leni Riefenstahl
Pois é, Leni Riefenstahl, que além de sobreviver à queda de um helicóptero ainda teve a manha de continuar realizando filmagens subaquáticas após os 100 anos de idade, era dura na queda, mas não era impermeável às ideologias políticas. Gênio do cinema não sei se era - assisti a poucos de seus filmes - mas talentosa certamente foi. A genialidade precisa de algo de seminal e Riefenstahl, pelo pouco que sei, estava mais pra inovação técnica que pra criação artística. (Para Spengler, por exemplo, genialidade é a "força fecundante que ilumina toda uma época".) E se ela, em algum momento, sentiu no íntimo algum remorso sincero por ter participado do que participou, só o sabe Deus. Consta que ela não somente deixou de reagir às perseguições do regime contra outros cineastas, como ainda se aproveitou disso. (Dizem que até trabalhou ativamente contra os adversários do nazismo, estimulando denúncias e intrigas.) Ao contrário de Speer, que teve muito tempo (20 anos em Spandau) para confirmar sua falsa inocência - afinal, por ser um técnico, a princípio acreditou ser "café-com-leite" no plano político-ideológico - Riefenstahl pegou apenas três anos de "férias" forçadas. Em seu julgamento, em Nurenberg, Speer assumiu a culpa de todas as ações do Reich, enfrentando a morte. Riefenstahl negou todas as acusações. Será que ela conseguiu entender, nesses poucos anos, que a responsável pelos filmes do partido tem sim tudo a ver com a política do partido? Ela negou, em seu julgamento, que fosse uma militante nazista, mas quem costuma ler jornais de um partido e recortar fotos de lindos arquitetos do mesmo partido é o que então? Bom, é possível que ela, nesta ou na outra vida, já tenha se havido com a Voz de sua consciência, não é? Na verdade, parece que o ostracismo e a pobreza em que caiu até os anos 60 foi o suficiente para levá-la de volta à realidade. O karma não falha e Hitler na veia não é anfetamina pra qualquer um. Ela mesmo confessou sua queda pelos discursos do Führer. Mas é preciso ouvir um Outro. E só Ele, o dono da voz, sabe qual será o próximo projeto em que ela irá participar. (Segundo o "diplomatastral" do Reverendo Moon, Hitler continua no inferno, sujo e nu, fugindo a toda de uma multidão vingativa de judeus, ciganos, poloneses, etc. Estará Leni se preparando para fazer um documentário a respeito? Ou estará em esferas mais elevadas aprimorando seus recursos cinematográficos? Como já disse, só Ele sabe...)

P.S.: Para mais informações sobre a carreira de Riefenstahl, clique aqui ou aqui. Para alguns detalhes de sua participação na NSDAP, clique aqui.

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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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