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Meus instrutores de viagem astral PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
01 de agosto de 2003
Um artigo no qual discorro rapidamente a respeito de minhas próprias experiências de projeção astral...

Por falar no Leonardo da Vinci - cujas fábulas citei em meu blog - acho que seria interessante tocar naquele assunto que adoro discutir com meus amigos céticos: projeções astrais. Claro, discutir esse tema com gente pódi-crê, esotérica, não tem a menor graça: engolem tudo, acham tudo maravilhoooso, sem no entanto nos ajudar a encontrar - por total ausência de espírito dialético - melhores explicações pro fenômeno. Por outro lado, com os céticos é muito mais divertido, pois fazem umas caretas, franzem os cenhos, sentem umas náuseas e às vezes ficam tão irritados que acabam por negar todo espírito de investigação: desacretitam a priori como se dissessem ao Leonardo da Vinci que é impossível construir uma máquina que voa...
E obviamente não há nada mais divertido do que mostrar a um pretenso defensor da racionalidade que ele está sendo irracional. Já eu, cético que também sou, fui obrigado por minha curiosidade, digamos, científica a experimentar algumas técnicas para tornar lúcidos meus sonhos e, por fim, a vivenciar projeções de consciência para além do meu corpo físico. E, sério, funcionou mesmo, principalmente a técnica da Bianca. Bem, é preciso confessar que ultimamente não tenho tido disciplina suficiente para realizar com maior freqüência certos exercícios projetivos, mas, graças a Deus, vezenquando ainda rola, de modo espontâneo, uma ou outra viagem. Aliás, minha primeira viagem astral, aos quinze anos de idade, foi totalmente espontânea. Eram umas 18 horas, eu havia acabado de chegar da educação física do Ateneu Dom Bosco - na minha super envenenada mobillete (cabeçote rebaixado, chupetinha e, no tanque, óleo de rícino, metanol e um fluido de dragster que meu pai trouxera dos EUA) - estava cansado pra caramba, as pernas bambas de jogar basquete e, então, resolvi dar uma deitadinha. No teto do meu quarto, diretamente sobre a cama, havia uma big lâmpada de 400Watts que eu instalara para turbinar o starfix. (Lembra daquelas estrelinhas fosforescentes?) Pois é, deitei ali no escuro, de barriga pra cima, e fiquei naquela letargia gostosa de quem não tem mais com o que se preocupar até o dia seguinte. Passei uns bons quinze ou vinte minutos nesse marasmo mental. De repente, sem mais nem menos, abri os olhos: dei de cara com a enorme lâmpada! Num impulso, assustado com a impressão de que acabara de surpreendê-la no instante exato em que caía sobre meu rosto, tentei me esquivar do objeto. Mas estava paralisado, não conseguia me mover. E a lâmpada lá, estática, diante de meus olhos. Quase em pânico, pude perceber que algo muito grande também caíra junto com ela: o próprio teto do meu quarto, todo cheio de estrelas fosforescentes, já mais apagadas que brilhantes! A sensação claustrofóbica durou alguns segundos, cheguei a pensar que minha casa desabara, mas, tão repentinamente como ali cheguei, caí em parafuso. Sim, na verdade, o teto não baixara, eu é que ascendera até a altura da lâmpada! Mas ainda não conseguia me mexer. Olhando pelo canto dos olhos, vi que estava atravessado na cama, tendo à minha esquerda a cabeceira, à direita os pés. E o mais sinistro: o vulto de uma pessoa estranha estava deitado perpendicular ao meu "corpo" e longitudinalmente à cama! Quem seria?! Fazendo um esforço tremendo pra me sentar, fechei os olhos e... me sentei. Felizmente nada havia de errado, já não estava, como me parecera, com a cabeça dependurada de um lado da cama e as pernas do outro. Eu estava deitado direitinho, tudo no lugar, a lâmpada pregada ao teto, nenhum vulto alheio sobre meus lençóis. Apenas com o correr dos meses seguintes, graças a variadas leituras e contatos, pude entender o que realmente se passara: minha primeira experiência consciente fora do corpo físico. O vulto? Apenas meu próprio corpo visto "de fora".

Com o passar dos anos, essa primeira experiência foi parar lá no fundo do meu baú cerebral. Claro, prossegui tendo alguns sonhos lúcidos, desses em que, por saber que sonhamos, assumimos todo o controle da exploração onírica. Aliás, outro dia, em algumas cartas que escrevi quando morava na UnB (xerocava todas), encontrei alguns trechos em que narrava para amigos certos sonhos lúcidos e vôos superhômicos sobre o Lago Paranoá. Bom, nada de mais, afinal eu ainda fazia pesados esforços mentais para me convencer de que eram apenas sonhos. E, então, anos depois, voltei a viver em São Paulo. Lá, namorei e morei com uma ex-namorada do Raul Seixas - pessoa por quem ainda tenho o maior carinho e respeito - que me ensinou uma técnica de projeção astral supostamente ensinada pelo extraterrestre Karran, do Planeta Semente ou Klermer (meu, solte sua imaginação!), à Bianca (Maria Aparecida de Oliveira), cujo livro "As Possibilidades do Infinito" fora revisado por essa mesma ex-namorada. Em 1999, já morando na Casa do Sol, residência da escritora Hilda Hilst, pratiquei durante oito meses, dia a dia, os tais exercícios. Ao final de quatro meses, sem alcançar resultados, eu me sentia ridículo, chavecando a mim mesmo de que ao menos eu pagava o mico entre quatro paredes, que a coisa não era assim tão absurda, não havia testemunhas e tal, sem falar que os exercícios eram um tipo de Yoga que no final das contas fariam bem ao meu corpo. Pois é, e começaram os sonhos lúcidos. Diversos sonhos em que, de repente não mais que de repente, eu me encontrava desperto em lugares estranhos, com plena consciência de que meu corpo físico estava noutro lugar, dormindo, e eu ali, brincando de Matrix. Encontrei muita gente sonâmbula, muita gente lasciva, muita gente perdida na noite. É, tive que começar a orar antes de dormir. Sem essa de ir parar no inferno o tempo todo ou sei lá onde. A Hilda, claro, me dava o maior apoio, já que ela mesma tivera diversas experiências do gênero nos anos sessenta e setenta. (Seu principal conselho sempre era: "se estiver em apuros, chame pelos Filhos da Luz, a Luz do Criador", conselho este dado por uma esfera de luz azul durante uma de suas projeções.) Sem falar que, assim como a Rachel de Queiroz em sua fazenda, também ela vira em sua chácara, em 1966, um disco voador. (Detalhes...)

Um dia sonhei que estava ali mesmo na Casa do Sol. Eu saía do banheiro dos fundos, passava por meu quarto - que era a biblioteca - e ia seguindo pelo corredor do pátio interno em direção ao quarto da Hilda. Estava grilado: havia montes e montes de gente perambulando por todos os lados, algumas fantasiadas, outras seminuas, fazendo a maior baderna, virando copos e derrubando comida pela casa. Eu, que na ocasião atuava como uma espécie de secretário particular da Hilda, pensei: puts!, a Hilda deve estar puta com essa zona! E saí no encalço dela. Na verdade, a coisa toda era uma grande festa, um tipo de rave private, como aquela em Maresias ou na Barra do Una, sei lá, em que, quando dei por mim, acordei numa sala enorme, cheia de gente estatelada em colchonetes, bem ao lado do Edgar Scandurra e de uma loira muito gata. (Detalhes detalhes...) Pois é, mas quem disse que eu encontrava a Hildeta? Vi um garçon ou mordomo - vai saber - e perguntei: cadê a Hilda? cadê a dona da casa? Ele me devolveu um sorriso irônico e desconversou: "Ela não está aqui..." Saí para o pátio interno - a Casa do Sol é dessas em estilo sevilhano - e me deparei com uma escada que dava para uma varanda no segundo andar. Acreditando que ela pudesse estar lá em cima, parti pra escada. Quando já me encontrava no meio do lance, ouvi alguém gritar meu nome às minhas costas. Ao me virar para atender o chamado, tomei um susto: senti meu corpo se movendo na cama! (Fato recorrente.) E finalmente me tornei plenamente lúcido. Fiquei espantado com a solidez da parede e do corrimão da escada, cuja textura ia experimentando cheio de admiração: seria real? O engrançado é que, sempre que eu quisesse, eu podia girar o tronco e sentir a repercussão desse movimento em meu corpo físico. E o que mais me punha a cabeça à roda era o fato de a Casa do Sol não possuir, na realidade, um segundo andar. Onde eu estaria afinal? E me lembrei do mordomo: aquele cara certamente conhecia as respostas. Mas... problema número dois: não tornei a encontrar o figura. Em câmbio, encontrei, na sala da frente, umas cinqüenta pessoas sentadas diante de uma TV ligada. Estavam todas catatônicas e não conseguiam tirar os olhos da maledeta, que, aliás, parecia transmitir algo um tanto quanto catequético. Juro, até o Genival Lacerda estava ali. No manhã seguinte, ao ligar pro escritório da Hilda (a casa tem ramais telefônicos), ela, como sempre: "E aí, Yuri? Com o que foi que você sonhou hoje?" Comecei a narrar o dito cujo, mas ela me interrompeu: "Nossa, vem aqui agora e me conta isso direitinho". Depois que narrei a viagem toda, ela me pediu mais detalhes sobre a estrutura da casa. E ela: "Você sabia que segundo os planos originais da Casa do Sol ela deveria ter dois andares exatamente como você está descrevendo? Eu só a fiz térrea porque o dinheiro não daria pra finalizar o segundo piso..." Fiquei besta.

Sete meses depois, os sonhos lúcidos se tornaram freqüentes. Eu estava sempre encontrando gente e batendo papos astrais mirabolantes, tudo sabendo que meu corpo estava quentinho na minha cama da Casa do Sol. Mas havia sempre uma névoa, uma visão embaçada das coisas, tal como nos sonhos comuns. E, finalmente, oito meses depois de começar os exercícios - devo dizer que nunca os fiz sob a supervisão da Bianca e, portanto, não sei se estavam corretos - tive uma saída tal como a que tive aos quinze anos de idade. Na ocasião, eu sonhava que estava no 103B, meu apartamento no alojamento da UnB, e que - enquanto admirava uma garota muito gata, alta, de cabelos curtos e pretos, que cantarolava e passeava pela sala - eu, ali naquele colchão que fazia as vezes de sofá, tentava bolar um jeito de convencê-la a se sentar ao meu lado. (Ela era linda e cantava muito bem, viu.) A certa altura, ela foi até a porta da frente e conversou com alguém que permaneceu no corredor. Em seguida, vindo em minha direção, disparou: "Vamos dormir?" Claro, respondi, todo empolgado, sem deixar de pensar: é hoje! Deitei no colchão e ela, após apagar a luz, se esticou ao meu lado. Fiquei com a cabeça em looping: e agora? toco nela? falo alguma coisa? espero? quem é essa figura? toco nela?... Decidi, então, pôr minha mão direita no intervalo que nos separava. Se ela estivesse a fim de algo, certamente entenderia o recado e a tocaria. Mal depositei ali minha mão e ela já a foi segurando. Esquivando-se ao já iniciado mal entendido, perguntou mais que depressa: "Yuri, você sabe onde é que a gente está?" Claro, respondi, a gente tá no meu apê. "Não", disse, "a gente está no seu quarto..." Não, tornei eu, observando melhor em volta, se não é a sala do meu apê então é a do seu. E ela: "Olha, não vai ficar assustado, hein..." E, nesse instante, sofri uma descarga extremamente forte de choques totalmente indolores, como se eu estivesse sob uma tremenda cachoeira a sacudir todo meu corpo, ao mesmo tempo em que ouvia um ronco tão alto quanto o de uma motosserra a podar meus cabelos. E, então, cheio de espanto, abri os olhos: eu estava com o teto do meu quarto da Casa do Sol a dois palmos do meu nariz, super nítido e claro. E o mais estranho: eu ainda sentia a garota segurando minha mão! Apenas quando a vibração cessou por completo sua mão de sonho se esvaiu. Mas eu ainda estava ali, totalmente flutuante, porém, paralisado. Lembrando de algo que li num livro do Sylvan Muldoon, ou talvez do Robert Monroe - viajantes astrais nada místicos, totalmente pragmáticos, bem ao estilo norte-americano - resolvi virar meu corpo bruscamente para o lado, fugindo assim da forte atração do famosééérrimo (diriam as bichas esô) cordão de prata. Tomei o maior susto: antes que, num piscar de olhos, caísse de volta em meu corpo, vi novamente aquele "estranho" vulto em minha cama.

A essa experiência, seguiram-se dois meses sem maiores novidades. Comecei a grilar e, num dia de forte síndrome de abstinência astral, pedi ao Papai do Céu que me enviasse algum instrutor mais bem habilitado. (Cansei de discutir com incrédulos sobre a existência de Deus e tal, coisa totalmente inútil e contraproducente. Agora ele é só meu Papai do Céu e pronto, quem não acredita Nele que vá para onde manda seu coraçãozinho minúsculo desprovido de imaginação.) E não é que o Figura é Todo Foderoso? Já devia ser primavera de 99 quando li a carta que uma professora de segundo grau escrevera pra Hildeta Hilst. (Fazia parte das minhas incumbências filtrar todo o material que chegava pra ela, afinal, todo grande escritor, além de correspondências interessantes, também recebe muita merda.) A tal professora demonstrava tanta paixão pelo trabalho da Hilda, ao mesmo tempo que um sincero carinho pela figura humana por trás da escritora, que não pude deixar de convencer a Hilda a ler aquelas folhas. E a mulher tinha um sonho: conhecer a Casa do Sol. Após uma breve discussão sobre a possibilidade de ela ser a "fã número um" da Hilda - ou seja, uma leitora psicopata quebradora de canelas como a Cathy Bates naquele filme do Stephen King, Louca Obsessão (Misery) - decidimos que, se ela se revelasse um perigo, soltaríamos os oitenta cães do canil sobre ela. Logo, num, digamos, belo domingo - oh! - apareceu a mulher. Graças a Deus a figura era super gente boa. Conversa vai, conversa vem, a Hilda - não me lembro mais por que - informou-lhe sobre minha eventual dedicação às viagens astrais e quejandos. E ela: "Ah, é? Eu tenho um amigo que contribuiu com o Waldo Vieira nos estudos que resultaram no Instituto Internacional de Projeciologia. Você quer que eu o traga aqui?" Claro, respondi. E assim conheci o Henrique B., figura excelente, engenheiro de uma fundação especializada em tecnologia de comunicações de Campinas-SP. Ele aparecia por lá de quinze em quinze dias com um livro novo e mais dicas sobre o assunto. O bom era que, sendo ele um técnico, tinha toda uma linguagem e postura científica diante do fenômeno, exatamente o que eu vinha procurando, já que esotéricos e ocultistas acabam confundindo mais que esclarecendo. Sua separação do Waldo Vieria, claro, decorria da mania deste último em criar novas e esdrúxulas palavras e terminologias para descrever fenômenos que se encaixam muito bem em palavras e conceitos antigos. Apesar de reconhecer a seriedade de Waldo Vieira, Henrique acreditava que todo esse procedimento não tinha senão a função de dar uma cara de ciência para algo que simplesmente espera ser encarado de modo científico, sem essa maquiagem para Nobel ver. E foi depois de conhecer o Henrique, e de seguir muitos de seus conselhos, que eu tive novas e ótimas experiências. Aliás, na última vez em que o encontrei, ele me contou mais uma dessas histórias fantásticas que fazem torcer os narizes dos cristalizados céticos de carteirinha. Ele falou sobre seu encontro, num plano elevado, com um ser de luz que, entre várias coisas de cunho espiritual, lhe deu dicas importantes relativas a suas pesquisas tecnológicas. O ser lhe transmitia profundo amor e o tratava como se o conhecesse há muito tempo. Indagado a esse respeito, o tal Filho da Luz, diria a Hilda, lhe segredou (desculpe, Henrique): "Você foi meu assistente há muitos e muitos anos. Foi muito querido. Seu nome era Fulano de Tal (não me lembro) e eu era Leonardo da Vinci". Claro que isso não me espantou nem um pouquinho. Pra quem, como eu, já conheceu um capitão de nave mãe do comando Ashtar, amigos do Ministro do Planeta Semente, a Mestra Pórtia (consorte do conde de Saint Germain vinda diretamente de Urano), o irmão caçula de Jesus Cristo (atualmente jornalista do Estado de São Paulo), a atual encarnação da Maria Madalena, o Aleister Crowley, etc. e tal, por que eu me espantaria com tal informação? Na verdade, acho-a mais plausível que as demais, afinal, há certamente um Dedão do Papai do Céu na coisa toda. Ah, tem mais um detalhe: quando o Henrique viajou à Itália, foi direto prum museu sobre o Leonardo da Vinci. E lá, num mostruário de vidro, viu um livro escrito pela pessoa que Leonardo afirmou ter sido ele, Henrique. O objeto custava mais de cem mil dólares. E ele ficou lá, emocionado diante do nome impresso na capa, rindo-se por imaginar como seria se pedisse para manusear o dito cujo com a desculpa de ter sido o seu autor. Acredite se quiser... :)


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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