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Rachel de Queiroz diz adeus ao caos PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
05 de novembro de 2003
Rachel de Queiroz

Ontem faleceu Rachel de Queiroz. Exatamente uma semana antes, ao folhear o exemplar número 10 da revista Grandes Acontecimentos da História (Editora Três), de Março de 1974, dei com este depoimento da escritora cearense a respeito do regime militar (o negrito é meu):

Não caberá em 20 linas uma tentativa de síntese dos prós e contras à Revolução de 31 de Março. Vamos antes ressaltar um dos aspectos que a distinguem entre os demais movimentos regeneradores havidos no Brasil e no mundo: é que esta Revolução nossa, nem durante o seu deslanchar, nem depois, na fase de consolidação, jamais suscitou aparecimento de um chefe carismático, um salvador. Escapou assim da fatalidade obrigatória às revoluções de esquerda e de direita, que é se cristalizarem em torno de um ditador, líder ou caudilho. Pois até no Chile, onde o comunismo se pretendia instalar "por via democrática", o malogrado Allende se ia configurando como homem-símbolo, insubstituível.

Aqui, o predomínio militar no movimento deu-lhe, singularmente, uma feição democrática e tranqüilizadora: a rotatividade dos chefes, que ocupam os cargos por tempo marcado, tal como se faz dentro das Forças Armadas. E isso dos primeiros aos últimos escalões, a começar pela Presidência da República, e sem esquecer o contingente dos técnicos, que também se revezam. Assim, quem governa o país é realmente um Sistema, cujos quadros perenemente se renovam. Dentro deles, a reclamada transição do militar para o civil se poderá fazer sem choque, à medida que os quadros políticos se recuperem e, mormente, recuperem a confiança perdida pela sua responsabilidade no caos econômico, social e institucional em que se afundava o país. Caos de que, como é visível e notório, miraculosamente fomos salvos.

Rachel de Queiroz
escritora
Só espero que a novela não esteja se repetindo e, exatamente por isso, a alquebrada escritora (de espírito inquebrantável) tenha preferido estar ausente desse nosso eterno retorno tupiniquim.

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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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