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Dogville, um filme duro de roer PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
14 de abril de 2004
O filme Dogville é interessante na forma, ótimo na escolha dos atores e um enorme desperdício dramático. Poderia ter sido uma obra trágica, mas o diretor - contaminado pelo mais ingênuo nietzscheanismo - preferiu transformá-lo numa piada de humor negro. Arma uma enorme e absorvente arapuca durante dois terços de projeção para ao final não pegar senão dois patos: eu e você. E olha que estava indo muito bem. Aquele carinha, o "escritor" do filme, por exemplo, é digno de todo desprezo, uma soma de fraqueza moral sem tamanho com uma incapacidade de reconhecer fatos óbvios, evidentes. (Personagem muito comum hoje em dia nos meios intelectuais.) E o mais louco é que ele, numa cidade sem um pastor, sem um padre, de igreja vazia, se arvora em guia humanista dela, uma espécie de prefeito moral. O cara é um político puro e não deseja senão legislar sobre a vida dos seus vizinhos, mudar o mundo pra melhor, isto é, para seu próprio conceito de "melhor". E, claro, aparece uma linda mulher. Pra apimentar as coisas, como sempre.

Tom, o escritor, parece bonzinho - e aí, Suplicy, beleza? - e usa a mulher como objeto de uma experiência sociológica, para ajudá-lo na importante tarefa de melhorar o mundo. E a coitada se ferra legal, é óbvio, até mais do que se tivesse votado no PT. Vira escrava, vira depósito de esperma coletivo. E o escritor ainda diz que a ama... Esse escritorzinho não passa de uma mistura de Pôncio Pilatos (governador que se deixa dominar pelos súditos) com Judas Iscariotes (um traidor filho-da-puta). A tragédia poderia ser elaborada a partir daí. Afinal, como permitir que fossem feitas tais coisas com uma mulher que se diz amar? No entanto, se não gostei do "sentido" do filme é porque ele é tão obra de arte quanto meu conto "Matando um mosquito com um tiro de canhão": uma boa construção estética que se perdeu ao transformar-se em piada sofisticada. Repito: o von Trier tinha tudo na mão para fazer uma excelente obra trágica, mas, por ser um nietzscheano bobo, criou um enredo digno de um adolescente. Ao invés de causar o pathos, uma catarse essencial qualquer, ele dá vazão a que nos regozijemos num sórdido sentimentozinho de vingança. "Bem feito", pensam os aborrescentes-adultos, "trataram mal a gostosa, se fuderam... Ahahaha!" (Até eu dei muita risada, afinal, não era uma piada?) O relativismo moral ali é completo, ninguém tem um chão pra justificar suas ações, nem mesmo a pretensamente compassiva Grace (imagine, Graça!!). Ao menos ela, se realmente tivesse amor no coração, poderia ter sido uma heroína trágica, à maneira de Catarina de Alexandria. Mas não, ela não via a situação de cima, mas apenas por um prisma mental distorcido: era uma dissimulada "super-mulher". Por isso digo: a compaixão, o serviço ao próximo baseado unicamente num sentimento humanitário qualquer, num humanismo de papel, só pode desembocar nas ações dessa personagem: chumbo e fogo. Grace aguenta, aguenta, aguenta e, de repente, percebe: são todos como cães, não podem agir de outro modo, logo, vamos exterminá-los. Uma Zarathustra assassina. Ridículo. Se esse filme é um filme de maturidade, eu então sou um matusalém. Daria um bom roteiro para o South Park. Para que rolasse um elemento trágico ali, alguém deveria ter a alma de aço, não aquele monte de geléia espiritual. Se não isso, um que pelo menos tivesse consciência de sua fraqueza, como Hamlet, ou de sua maldade, como Ricardo III, ou seja, que ao menos não pecasse contra a própria inteligência. Até o Don Quijote é um trouxa com uma alma de aço. Assim como o Idiota, do Dostoiévski. Dogville deveria se chamar Dogfilm, porque é o filme do Cão. É o filme de um mundo onde Moisés, o portador do decálogo, não existiu senão como cachorro (lembra-se do nome do cão? Moses!!!), um mundo no qual o primeiro mandamento - "amará ao Senhor seu Deus sobre todas as coisas" - soou simplesmente como au au au au... Ninguém ouviu nada.


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Sobre o autor...
Yuri Vieira, 35, é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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