Pesquisar
  Início arrow Todos os textos arrow Pegadinhas e Adolf Hitler

Pegadinhas e Adolf Hitler PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
29 de novembro de 2003

Uma das poucas coisas da televisão que realmente me agradam - além do Friends, da Grande Família e de certos filmes - são essas pegadinhas com câmera escondida. Acho ótimas, principalmente quando sutis, inteligentes, do tipo que joga com nosso sentimento do absurdo. É num desses apertos que muita gente revela certas facetas do seu caráter. Aquela da loja de "revelação em uma hora" que, na ausência do "cliente", se converte em uma lavanderia é excelente. A pessoa fica passada, trêmula, algumas até acreditando ter mudado de dimensão. Outras, mais radicais, do Topa Tudo por Dinheiro, por exemplo, também deleitaram meu senso de humor negro, tornando-se clássicas. Uma das melhores foi a da Flor (acho que era esse o nome da sujeita), que, tendo ficado presa com seu empresário numa cabine telefônica, assistiu, lá de dentro, ao roubo do seu carro zero. O pior é que o tal "assaltante", para dar a partida, usara a chave que o próprio empresário (combinado com a produção) lhe passara por uma fresta da cabine. E a Flor lá, puta da vida, a protestar violentamente, já que não se lembrava da existência de nenhum pé-de-cabra no porta-malas do tal carro. Em seguida, com a mulher já aos prantos, a cabine foi içada por um guindaste e levada, num caminhão da companhia telefônica, para um pátio repleto de cabines com outras pessoas presas, todos atores! E um funcionário da companhia ainda vem e lhes diz que terão de esperar a vez, já que só há um técnico para livrar toda aquela gente! Surreal! Nem preciso dizer que a coisa toda é pontuada pela risada impagável do Sílvio Santos. E a mulher lá, de joelhos, desesperada, berrando palavrões, chorando, dando socos e chutes em seu empresário... Enfim, a figura se revelou incapaz de discernir o real do irreal. E olha que não acredito houvesse ali algum potencial de atriz para forjar aquilo tudo. Neste caso, a vergonha e o sentimento de patético transmitido por ela ao descobrir a sacanagem mereceriam um Oscar. E isso me faz pensar: como alguém não desconfia de semelhante farsa? Eu, por exemplo, mal sou abordado por um estranho na rua já penso: pronto, me pegaram! Da última vez que me assaltaram, quase saí correndo aos berros: produção! produção! A realidade é sempre absurda demais pra minha cabeça. (Depois deste preâmbulo, fica claro o porquê de eu ter escrito o roteiro do curta-metragem Eye am the I.)

Mas tudo isso é apenas para dizer que bem poderia rolar outro curta-metragem, falado em alemão, feito a partir dessa anedota narrada por Albert Speer, o arquiteto de Hitler, em seu livro "Por dentro do III Reich":

Encerrarei a menção do que ocorria nas reuniões à sobremesa contando outro embuste. Nessa ocasião, o alvo do ataque foi Putzi Hanfstaengl, chefe da imprensa estrangeira. Goebbels desconfiava dele por causa das suas relações pessoais com Hitler. Ridicularizava-o pela sua suposta avareza. Utilizando-se de um disco de vitrola, Goebbels tentou demonstrar que Hanfstaengl plagiara de uma canção inglesa a música de uma marcha popular, composta por ele, intitulada Der Fon.

Assim, o chefe da imprensa estrangeira já estava desacreditado, quando, durante a Guerra Civil Espanhola, Goebbels contou que Hanfstaengl fizera observações depreciativas da combatividade dos soldados alemães na Espanha. Hitler aborreceu-se. Iria dar uma lição àquele covarde, que não tinha nenhum direito a dar opinião sobre a valentia dos demais. Alguns dias mais tarde, apresentou-se no gabinete de Hanfstaengl um mensageiro de Hitler. Era portador de envelope lacrado, que Hanfstaengl só podia abrir depois de estar em um avião que estava preparado para ele viajar. A bordo do aviào, depois de levantar vôo, o chefe da imprensa leu, aterrorizado, que desceria na "zona ocupada pelos vermelhos na Espanha", a fim de agir lá como agente de Franco.

Hitler soube de todos os detalhes pelo que lhe contou Goebbels, na mesa. Depois de ler a folha de papel, Hanfstaengl rogara, desesperadamente, ao piloto que voltasse, pois a causa daquele vôo devia ser uma mal-entendido. O avião estivera voando em círculo, horas e horas, sobre o território alemão. O passageiro recebia informações falsas a respeito da viagem e pensou que já estivesse se aproximando do território espanhol. Afinal, o piloto disse que tinha de fazer uma aterrissagem forçada e desceu no aeródromo de Leipzig. Hanfstaengl soube então que tinham zombado dele e excitado declarou que estavam tramando contra a sua vida, desaparecendo sem deixar rastro.

Os diálogos reproduzidos produziam risadas, na mesa de Hitler, especialmente pelo fato de ter sido o Füher em pessoa quem planejara a trama com Goebbels.
Imagino que o diretor ideal pra coisa seria ou o Thomas Vinterberg ou o Lars von Trier (ex-Dogma95), que adoram jogar desconforto sobre o público. Claro, toda a cena do desesperado Hanfstaengl teria de ser extremamente cômica. Mas haveria algo mais incômodo do que rir de uma sacanagem elaborada por Hitler? E pior, rir com ele? Sim, pois ainda que soubéssemos tratar-se a história toda de uma farsa, só saberíamos a identidade de seu autor ao fim. Até imagino a gargalhada final do tirano nazista - Speer diz que ele costumava gargalhar loucamente, tipo um Sílvio Santos - enquanto, em segundo plano, vamos vendo cenas terríveis do bombardeio de Guernica, a cidade sagrada dos bascos. "O horror! O horror!", pensaríamos, enquanto, por fora, nos esforçaríamos para domar um ahahahahaha!...

As pessoas costumam pensar que certos "vilões" dormem rosnando, abraçados a seus tridentes, mas na verdade não passam de gente comum com mil e uma minhocas na cabeça. São até capazes de rir. Aliás, depois de um filme desses, só mesmo orando antes de dormir. Esse mundo ainda sofre muitos bombardeios e o humor, sem a fé, ao contrário do que pretendia Herman Hesse, não salva nada. Que o diga o próprio Hitler...


{moscomment}
 
Próximo >



Menu principal
Início
Blog
Artigos e crônicas
Contos
Poemas
Cartas
HQs
Todos os textos
Meu curta-metragem
Pesquisar
Livro de visitas
Opiniões alheias
Outros autores
Livros online
Mais lidos
Textos recentes
AdSense
Login





Esqueceu sua senha?
Sem conta? Crie uma
Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
Leia mais...
 
Use AdSense

Firefox

Gostou?

Technorati

Add to Technorati Favorites
Skype Me

Skype me
Syndicate

RSS do Blog
RSS do AudioBlog
Creative Commons

Licença Creative Commons
Total de visitas

† 2000 - 2008 Yuri Vieira dos Santos. Some rights reserved.
Powered by Joomla!.