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Rato entrevista Lulinha PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
03 de maio de 2004

Você viu a entrevista que o Lula deu ao Ratinho? Não? Então você não é "povo", hermano, porque el pueblo sí lo vio. (É craro que parte do povo, a crasse média, tava assistindo ao especial da Grobo sobre o Ayrton Senna, né, o cara que sabia vencer.) Pois é, o Rato deixou muito claro, logo no início, que era antes de tudo amigo do entrevistado. E isto significa: a entrevista não foi nem um pouquinho imparcial, não teve o fálico cassetete pra bater na mesa, aquela coisa de macho bigodudo. Ratinho foi uma menininha. Não se falou de Waldomiro, de José Dirceu, de assassinato de prefeito de Santo André, da dubiedade do governo com o MST, dos resultados ínfimos do Fome Zero, de aumento de impostos, etc., etc. Muito pelo contrário: reforçou-se a idéia de que Lulinha veio do povo, logo, o povo está no poder, logo, o dinheirama que o governo arrecada não é do Estado, mas do povo, e que, por isso, tudo vai muito bem porque nunca se arrecadou tanto dinheiro... Ôôô, gente bôza! Cadê o garoto Juca? Cresceu e virou Ratinho! :)

E, olha, tem um detalhe: confesso que, em alguns aspectos, admiro o Rato. Sim, porque, de modo geral, ele é a representação do senso comum do nosso povo, em español sentido común, que - como já dizia Facundo Cabral - es el más común de los sentidos. E o senso comum não é senão o Sentido Múltiplo Comum das noções individuais sobre a realidade circundante, é o substrato a partir do qual o povo reflete e reage no mundo, sendo a espontaneidade uma de suas características mais marcantes. E ninguém pode negar que, quando o Ratinho acerta, acerta porque é espontâneo. E não adianta se levantar com papo acadêmico dizendo que ele rebaixa o nível da TV, porque não é tão simples assim. Ele é nosso povômetro. Vi isto muito bem nas diversas vezes em que o assisti com a família do Chico, caseiro da escritora Hilda Hilst, e, por que não?, com meus pais e tios. O Chico e sua família não perdiam o Ratinho por nenhuma novela. E a identificação das pessoas com ele está justamente nessas reações espontâneas a certos fatos, afinal, tem coisa que, de cara, não dá pra engolir. Mas quando é preciso usar a cachola... puts, pobre Ratinho. Seu grau de acertos é inversamente proporcional à quantidade de raciocínio. Tal problema decorre do fato de que o senso comum pode ser programado e este é um dos maiores talentos do PT: impor reflexos condicionados, programar, informar (no sentido cibernético do termo), visando determinados fins. O Rato foi programado pela publicidade petista, já não percebe que o Lulinha não é mais povo, é presidente, e que, se não há dinheiro na praça, é porque - graças à sanha tributária - está todo ele nas mãos do governo. Pequenos e médios empresários estão quebrando, milhares de empregos vão pro brejo, e por quê? Porque ninguém consegue poupar para investir, para crescer, já que todo dinheiro é necessário para cobrir as dívidas e o agigantamento do Estado. Tudo o que se compra num supermercado é tributado uma, duas, três vezes mais do que o razoável. E o povo nota isso? Óbvio que não, afinal já foram programados por anos e anos para crer que o Estado, ao invés de mediador de interesses, é o motor da prosperidade, do desenvolvimento e do progresso. O senador Suplysimpsons, ao emitir instruções pela interface da bandeira nacional, não queria torná-lo responsável até mesmo pelo amor? É só isso que o PT sabe fazer: perverter consciências. E o coitado do Ratinho, sem se dar conta, contribuiu muito bem com esse desserviço ao pretender amainar o crescente descontentamento popular. (Aliás, coitado ao pé da letra, de coito, de comido pelo PT. Isto é, o cassetete mudou de dono.)

Ratinho, pois, não percebe mais que a base de todo governo democrático é a justiça e de que não há injustiça maior do que arrancar das mãos do povo o que este ganhou com seu próprio suor. Afinal, qual foi o mote para a rebelião das colônias inglesas? Qual foi o mote da Inconfidência Mineira? Alguém se lembra? Impostos. Tudo bem, concordo que a diminuição da carga tributária não seria o remédio para todos os nossos males. Mas seria um indicativo de luz no fim do túnel. Assim como a diminuição do Estado, tal como essa louvável decisão de se diminuir o número de vereadores das cidades. Mas nem disso falou Ratinho. A entrevista, em suma, não passou de um evento zoológico onde esse roedor de Ibope comeu churrasco e ouviu música sertaneja acompanhado por um molusco que só cairia bem mesmo é numa boa tortilla ecuatoriana. Com um limãozinho em cima, humm...



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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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