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Por yuri vieira   
06 de junho de 2002
"O que esperais de um Deus? Ele espera dos homens que O mantenham vivo."
Hilda Hilst

Vezenquando recebo, em bloco, diversas mensagens a me indagar como fui parar na casa da Hilda Hilst. Em seguida, novo silêncio, depois, mais curiosos. Hoje, Rose Falhari, minha ex-professora de redação no cursinho (1990), me pergunta se sei onde encontrar o livro "Carta a El greco", de Nikos Kazantzakis, que, segundo a Hilda, foi o livro que a fez abandonar o ramerrão e os prazeres da São Paulo boêmia, e se retirar para uma casa de campo (Casa do Sol), nos arredores de Campinas-SP, onde pudesse encontrar seu próprio silêncio interior, ou seja, o protagonista explícito ou não da maior parte de seus livros: Deus. Isto me fez lembrar do primeiro mês que passei na Casa do Sol, Outubro de 1998, e, coincidentemente, do primeiro livro que lá li: "Ascese", também de Nikos Kazantzakis, que, dentre outros, ainda escreveu "A última tentação de Cristo" e "Zorba, o grego".

Poucos acreditam, mas quando minha amiga Shirley Stefanowsky me apresentou Hilda Hilst, eu não tinha a mínima idéia de quem ela era. Eu havia abandonado a UnB - e minha querida Brasília - e estava de volta a São Paulo, onde nasci. Era então sócio de um estúdio fotográfico (o Base 1) com Dante, Fábio Correa e Christian Sievers, todos, sem excessão, excelentes fotógrafos. Shirley era nossa produtora e, enquanto me ajudava a preparar o lançamento do meu primeiro livro - A Tragicomédia Acadêmica -, falou-me de Hilda pela primeira vez. Para mim, portanto, Hilda se resumia a isto: a amiga escritora da minha amiga, uma provável hiponga que vivia com montes de cachorros numa chácara. Cheguei a pensar que ela teria a minha idade, uma vez que Shirley falava tão vivamente dela sem jamais mencionar quantos anos tinha. Quando, pela primeira vez, vi sua foto na contracapa do livro "Tu não te moves de ti", emprestado pela Shirley, pensei: ela deve ter uns quarenta anos. Eu sei que esse desconhecimento pode parecer incrível e estranho para alguém que se diz escritor, mas meus interesses nunca se limitaram à literatura - tanto que não quis estudar apenas Letras -, e sempre tive o costume de ler preferencialmente aqueles autores citados por outros autores que eu já conhecia e admirava. Ninguém, que eu me lembrasse, nunca me citara Hilda antes e, se o fizeram, foi longe dos meus olhos e ouvidos. (Meu amigo Roosevelt Rocha, professor de latim - que, aliás, foi quem me deu carona quando me mudei de mala e cuia pra casa da Hilda - disse que me falara a respeito dela anos antes, quando ainda vizinhos em Brasília, mas, realmente, não me lembro.)

Bom, a situação era a seguinte: eu sabia que, em 24 de Outubro de 1998, eu iria entrar em meu ano pessoal número 7, o que, na numerologia, significa que haveria uma tendência, no correr desse ano, de eu me voltar para meu interior, onde eu iria discernir com maior nitidez o valor do caminho que escolhera, a amplitude de meus potenciais e, de quebra, minha própria Voz. (Um escorpiano como eu, por mais cético que tente ser, leva isto muito a sério.) Só que eu estava vivendo em meio a uma balbúrdia sem fim, com mil fotógrafos estressados, assistentes pirados, festas, ravers, DJs, lindas modelos - o Fábio fotografava pra Elle e Vogue, o Cristian, pra Trip -, sem falar em minha eterna dúvida: o que é, mas o que é mesmo que um escritor está fazendo no meio desse adorável hospício? Quando voltarei a meu ritmo de leitura e a meus próprios projetos literários? Como conseguirei ter um tranqüilo ano 7 morando na Vila Madalena com uma namorada mãe de dois filhos quase da minha idade, cada qual mais maluco que o outro? (Sim, porque até o Marcelo D2 quis morar por lá, num dos quartos vagos. Sem falar que minha namorada, quando mais nova, fora namorada do Raul Seixas.)

E chegou Julho de 1998. Ainda me lembro da primeira vez que vi Hilda: quando entramos na sala daquela casa espanholada, ela estava sentada em frente à TV, cercada de cães e inclinada sobre uma mesinha na qual se via seu Whisky, num copo longo, e um pratinho de cebolinhas. Aliás, foi também a primeira vez que comi cebolinhas, que ela, gentilmente, se apressou em me oferecer. Depois, ela reclamou do horário tardio em que chegáramos - um pneu havia furado no caminho - e que deveríamos aguardar o final da novela para conversarmos melhor. Lembro-me de me espantar com sua idade: ela não tinha quarenta, mas uns setenta anos de idade. (Na verdade, tinha 68 anos.) Passamos um tranqüilo e excelente final de semana, o qual, infelizmente, terminou com Hilda literalmente soltando os cachorros em cima da gente. Sim, pois no sábado fomos até Campinas assistir a um show conjunto do Naná Vasconcelos e do Uakti, no qual chegou a ocorrer certo estresse entre estudantes, eu acho, e a polícia. Tudo teria sido normal se, após o ótimo show, tivéssemos ido para casa. Mas não, fomos com um dos músicos do Uakti, amigo da Shirley, a um bar próximo. Em seguida apareceu o Naná Vasconcelos e ficamos todos de maravilhoso papo furado até as quatro e meia da manhã. O problema foi que, ao entrarmos na chácara da Hilda, fomos recebidos pelos uivos e latidos de cerca de oitenta cães. Hilda ficou muito assustada com a tempestade canina e, após especular sobre as possíveis causas, descobriu, pela manhã, que os hóspedes eram os culpados. Fomos rispidamente convidados a nos retirar. (Sabe, né, coisa de taurinos, cuja natureza Hilda não nega.) O que não nos impediu de lá voltar ainda outros dois finais de semana e, finalmente, de receber o convite de Hilda, que havia lido meu livro, para residir com ela. Passei então, à guisa de experiência, o mês de Outubro na Casa do Sol, lá passando meu aniversário de 27 anos, ao qual compareceu, por puro acaso, o poeta Bruno Tolentino. Na biblioteca, que, feito um sonho realizado, também era o meu quarto, peguei o livro que mais parecia se coadunar com a essência do que seria meu ano 7: "Ascese", de Nikos Kazantzakis. Mostrei-o para Hilda e ela, então, me contou o caso em que Kazantzakis, ao se preparar para ir escrever em Monte Athos, resolveu antes despedir-se da vida mundana transando - no vocabulário da Hilda, fodendo - com uma prostituta em Paris. Ele tomou banho, vestiu-se e, quando foi ao espelho barbear-se, viu que seu rosto estava coberto de pústulas. Encarou aquilo como um sinal dos Céus, desistiu da prostituta e foi a Monte Athos cumprir seu dharma.

Bom, foi assim que conheci Hilda Hilst. Neste texto não quero ainda falar do alcance da minha experiência junto dela. Morei em sua chácara por pouco mais de dois anos - meus anos pessoais 7 e 8 - e, vez ou outra, passo temporadas por lá. Há muito de verdade e muito de mistificação nas histórias da Casa do Sol. Mas isto ficará para futuros textos. (Escrevi lá um diário. Infelizmente ainda não havia blogs.) Por enquanto, basta dizer que é uma pena que a Hilda tenha setenta e dois e não vinte anos de idade. Bom, ao menos acreditamos ambos na imortalidade...


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Sobre o autor...
Yuri Vieira, 35, é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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