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Crime, castigo e redenção PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
19 de novembro de 2002

Se tem uma besteira que a gente se cansa de ler por aí é a que diz que a criminalidade tem tudo a ver com classe social. Como se a pobreza fosse não uma horrorosa condição de escassez material, mas o próprio diabo. Dizem o tempo todo: "se não fizermos logo a tal distribuição de renda a violência irá aumentar". Se isso fosse verdade, a Índia seria o país mais violento do mundo e a tal Suzane Richthofen seria uma santa. E não adianta você aí se levantar e dizer que eles, os indianos, têm a bomba atômica, porque quem a tem é o Estado indiano e, claro, se Estado é uma coisa, o povo é outra totalmente diferente. Se não fosse, as 100 milhões de pessoas mortas pelos regimes comunistas de diversos países seriam culpadas pela própria morte. E tampouco seria verdade dizer que a parricida Suzane é uma exceção. Basta deixar a TV ligada num fatídico dia de Linha Direta. Mil assassinos de todas as classes sociais. Os narcotraficantes, por exemplo, são riquíssimos. (Alguém duvida? Então vá ver quanto custa uma bazuca ou uma AR15.) A violência, o crime, enfim, o mal está muito mais próximo do que imaginamos, está colado à nossa pele.

Outro absurdo é lermos o Sr. Antônio José Eça, psiquiatra forense, afirmar que a Suzane Richthofen "não tem cura", que "a maldade está arraigada em sua alma" (Isto É Gente n.172). O que é que um psiquiatra entende de alma? O ser humano José Eça até poderia entender da dita cuja, mas um psiquiatra só está qualificado para se pronunciar sobre cérebros e mentes. Pois a alma transcende a mente, e se o mal pode colar-se à nossa pele mental, que é temporal, não o pode à alma, que é imortal. Ivan Karamazov, personagem do livro "Os irmãos Karamazov" (Dostoievski) escreve: "se Deus não existe, tudo é permitido". Inclusive, dá pra dizer, matar pai e mãe. A avó também, já que ontem ela tava muito pentelha. E - por que não? - a vizinha que não quis me dar... Sim, se não existe um Sentido por trás de tudo, uma Finalidade, podemos dar o sentido que quisermos a qualquer coisa, um "fim" a qualquer pessoa. Um amigo me diz: "ah, mas a existência de Deus não é necessária para se ser uma pessoa moral, bacana". E, apesar de os indianos serem pacíficos por serem muito religiosos, ele tem razão. Alguém pode levar a vida numa boa apenas com esse princípio ético: "só farei a meu próximo aquilo que não me incomodaria se ele fizesse comigo". O problema é que qualquer princípio puramente intelectual tem lá seus limites, como a própria mente, que - segundo o taoísmo - sendo finita, não pode abarcar o infinito. O Riobaldo (narrador protagonista do Grande Sertão: Veredas) dizia que não se pode duvidar: tem gente nesse mundo que mata só pra ver a cara feia que o outro faz ao morrer. E pior: que essa gente não tem o menor medo de que façam o mesmo com ela, afinal, é tudo cabra macho e a vida é uma bosta sem sentido mesmo, é irreal, é um sonho ruim, uma hora acaba e... nonada. Aliás, até a mera idéia da existência de Deus, até o achar que se ama pode ser um motivo para matar, como a tchurma da Al Qaeda bem nos mostrou. Achar que se ama é finito, amar é infinito.

Bom, então por que diabos a Suzane matou os pais? Só porque o pai lhe deu na cara algumas vezes? Não lhe deram bom exemplo de conduta? Por ganância? O filósofo Mário Ferreira dos Santos - o maior que o Brasil já teve - escreveu que mais próximos estaremos da sabedoria quanto mais nos identificarmos com a Realidade. Humm, dirá você, num saquei nadica de nada. E não é fácil mesmo. As tragédias gregas chamam essa cegueira para com a Realidade de hybris, a qual faz, por exemplo, com que Clitemnestra mate o marido porque ele matou sua filha e que seu filho, Orestes, a mate porque ela lhe matou o pai. (O apresentador do Linha Direta da época se chamava Ésquilo.) Claro que Orestes passa o resto do tempo sendo perseguido pelas Fúrias, um bando de mulheres horrorosas cheias de cobras na cabeça e tridentes pontudos nas mãos, aliás, simples personificação de seu remorso e de seu excessivo distanciamento da Realidade: só ele as via. O hinduísmo, por exemplo, afirma que o Real é algo que ultrapassa e anima esse mundo em que vivemos, essa ilusória Maya. (Essa Matrix, diria você.) Um assassino pode atingir a liberdade que uma Centelha da Realidade Última - nossa alma - possui de viver por aqui, mas não a destruirá. Raskolnikov, personagem de "Crime e Castigo" (Dostoievski), matou duas mulheres a machadadas e, como o narrador da música "Tô ouvindo alguém me chamar" (Mano Brown/Racionais MC), também ele questionou: "será que Deus ainda olha pra mim?" O poeta John Donne escreveu, "nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma. Cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. (...) a morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido com a humanidade e, portanto, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". Sim, a maldade é que é uma ilha. E a morte alheia me diminui não simplesmente porque o falecido faz falta, mas porque quem tirou essa vida está ilhado, sem coração, sem o tão esquecido Deus, esse que jogamos fora junto com a água suja da bacia só porque nunca nos falaram dele com o Coração, mas com a boca vazia, essa boca cheia de rezas automáticas, de messianismo político ou de niilismo filosófico. Bom, pelo menos não existem conseqüências infinitas para causas finitas. Suzane certamente pagará por seu crime - precisa pagar! - mas não permanecerá para sempre - como quer o psiquiatra - com a "maldade arraigada em sua alma". Como Orestes, mais cedo ou mais tarde, nesta ou noutra vida, as Fúrias de sua culpa a perseguirão. Como Riobaldo, um dia ela olhará seus atos desvairados com espanto, quase sem acreditar que foi capaz daquilo. E, finalmente, como Raskolnikov, um dia, quando realmente aprender a amar - ela diz ter matado por amor, mas foi apenas por amor à Irrealidade, à loucura - nesse dia, ela terá sua redenção.


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano "exilado" em Goiânia. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e, após residir durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster), trabalha hoje como roteirista e diretor. Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que, além de receber o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN, foi convidado para participar do festival "No Siesta, Fiesta!" (2009), em Tromsø, Noruega. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e Olho de Vidro (Sertão Filmes).
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