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Outro leitor de pseudônimo esquisito - um certo Kid Abbo (meus preferidos continuam sendo o Cereal Killer e o Índio de Gravata) - me escreveu dizendo que acha a língua espanhola brega e que, portanto, não leu o texto que postei sobre "realismo fantástico", embora ainda queira saber o que penso sobre essa expressão. Apesar de não concordar de modo algum com tal opinião - como tampouco concordaria os que recentemente elegeram o livro "El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha" o melhor romance de todos os tempos - continuo não fazendo acepção de leitores: dou atenção a qualquer um. Bom, vamos por partes, exclamou Jack, o Estripador, antes de cortar a língua do Cléber do BBB: "faz par... tchuk!"
Para mim, "realismo fantástico" é simplesmente... uma pulga enorme atrás da orelha. Partindo do princípio muito bem colocado pelo físico James Jeans - "tudo é possível, embora algumas coisas sejam mais prováveis" - podemos afirmar, mais exatamente, que um determinado evento é fantástico quando não encontramos provas suficientes nem para refutá-lo, nem para corroborá-lo. É como aquela pulga gigante - a maior da história da humanidade - atrás da orelha de São Tomé ao ouvir seu Mestre dizendo "quem me viu viu a meu Pai que está nos Céus", sem ter estado presente - ó dia, ó azar - ao momento da transfiguração: estarei louco ao seguir esse Cara? Talvez uma melhor ilustração dessa idéia seja o "causo" que me contou um dos atuais seguidores desse mesmo Cara, o excelente compositor erudito José Antônio de Almeida Prado, ex-aluno de Messiaen, e professor da UNICAMP. Num dia em que o acompanhei até uma farmácia para comprar insulina, Almeida Prado me disse: Hildinha falou que você também está lendo sobre projeções astrais, é verdade? Envergonhado como um garoto que tem as Playboys e Hustlers confiscadas pela mãe, que, por puro acaso, levantara o colchão para trocar aquele imundo lençól, comecei a gaguejar, afinal, não saio por aí revelando a meus amigos intelectuais, acadêmicos ou semelhantes tais gostos pervertidos de leitura. E ele: é que tenho uma história que nunca contei a ninguém mas que gostaria de te contar. Ufa, pensei e pra ele: manda bala, sou todo Ovídios. E eis o que ouvi:
"Na noite em que comecei a compor o movimento das 'Cartas Celestes' que trata de Urano, fui acometido, ao piano, por um cansaço enorme, por um peso dolorido na nuca. Vendo que já era demasiado tarde - e aproveitando que estava mesmo tendo dificuldades com a composição - pus a um lado as partituras, o lápis e fui me deitar: 'melhor retomar amanhã, quando estiver com melhor disposição'. Já na cama, deitado de costas, fiquei pensando no meu trabalho, na importância que aquela obra teria para mim e tal e, assim, fui caindo naquela letargia que antecede o sono. De repente, senti, sabe?, aquele tranco (nota: os projetores chamam tal fenômeno de repercussão) e, meio aflito, abri os olhos: Yuri, que susto! Eu estava flutuando em cima do telhado da minha casa! Quando eu já começava a me desesperar, acreditando estar morto, surgiu à minha frente uma esfera de luz azul que, rapidamente, veio a meu encontro e se chocou comigo. Na mesma hora já me vi dentro de uma espécie de tubo muito comprido - aliás, as laterais pareciam a superfíce de um desses muros chapiscados -, o qual me sugava como um aspirador. Quando a viagem acabou - parecia uma viagem de elevador sem a inércia - eu me encontrei flutuando sobre uma planície muito bonita e sob um céu de uma tonalidade e luz que eu nunca vira: esta não é a Terra, pensei. 'Você está em Urano', disse calmamente uma voz ao meu lado. Olhei em sua direção e vi um homem bastante alto, vestindo apenas uma túnica: 'não tenha medo, não vou lhe fazer mal...' e, pegando-me pela mão, me levou a sobrevoar a região. Depois de me mostrar tudo - vi diversos prédios afastados uns dos outros, como em Brasília, mas sem o menor sinal de ruas - ele me olhou diretamente nos olhos e falou com bondade e firmeza: 'você viu? não há o menor sinal de conflito aqui. Todos os que aqui estão vieram em missão de paz. Estamos aqui para ajudar seu planeta. Não estamos em guerra com ninguém. Portanto, volte ao seu trabalho e refaça todo o movimento sobre Urano das suas 'Cartas Celestes'. Se permanecer como está, você estará mentindo, transmitindo uma mensagem falsa sobre nossa missão. Vá com Deus!" E, de súbito, a esfera de luz azul, vinda não sei de onde, chocou-se novamente comigo. Refiz o percurso pelo tubo de muro chapiscado e, então, sofri novo tranco, já em minha cama. Levantei elétrico, os pelos arrepiados, o corpo formigando. Corri para o piano e, de uma só vez, compus todo o novo movimento sobre Urano. E o cara tinha razão: antes ele estava muito Stravinsky, muito Sagração da Primavera..."
 Isto, caro Kid Abbo, é realismo fantástico e, como Jacques Bergier e Louis Pauwels tão bem colocavam, acredito que nosso universo não pode ter outra natureza senão a do fantástico, a do imprevisível. O próprio Almeida Prado, ao me relatar sua experiência, me disse: "não vai sair contando isso por aí não, Yuri (ooops!), senão vão achar que tô doido e vão me tirar da UNICAMP. Se alguém me perguntar, não vou negar, mas também não vou confirmar". E por quê? Ora, porque a universidade - leia bem, "universidade"- costuma nos ensinar que o universo é apenas uma "coisa" sem fim - nos dois sentidos deste termo - e nada mais. Agora o mais interessante é o seguinte: quando contei essa história pra Pórtia, minha amiga extraterrestre (noutro texto falarei dela), ela me disse: "que bobo, aquelas coisas que ele viu não eram prédios não, eram naves interestelares. Urano é nossa base, é onde estamos estacionados para a Grande Cura..."
E pra terminar, atente para o seguinte: na foto de Urano que peguei no site da Nasa - veja acima - vemos várias luzes na atmosfera do planeta. No mesmo site você lerá que os cientistas não sabem o que isso significa, talvez um tipo de aurora boreal ou efeito fotoeletromagnético semelhante mas... bem, ninguém tem uma resposta definitiva. Em todo caso, ainda nos resta comprar o CD das "Cartas Celestes", esse mapa para viagens astrais... Abração, véio! {moscomment} |