 Yuri e Hilda, na Casa do Sol, 1999. "Esta não é propriamente uma opinião a meu respeito mas um trecho de uma entrevista cedida por Hilda Hilst - com quem morei por dois anos - ao Cadernos de Literatura Brasileira (IMS), no qual ela me cita."
Cadernos: Noutras palavras, a sua poética, de certo modo, sempre foi a do desejo?
Hilda Hilst: Daquele suposto desejo que um dia eu vi e senti em algum lugar. Eu vi Deus em algum lugar. É isso que eu quero dizer.
Cadernos: E a importância de Deus diminui também agora?
Hilda Hilst: Não preciso mais falar nada, entende? Quando a gente já conheceu isso, não precisa mais falar, não dá mais pra falar.
Cadernos: É, portanto, um esgotamento da linguagem, um impasse, digamos, "expressivo", que leva ao silêncio?
Hilda Hilst: É verdade. Leva ao silêncio. Eu fui atingida na minha possibilidade de falar. Lá do alto me mandam não falar. Por isso é que estou assim.
Cadernos: Sua obra, no fundo, então, procura...
Hilda Hilst: Deus.
Cadernos: Ele não significava o Outro, o outro ser humano?
Hilda Hilst: Deus é Deus. O tempo inteiro você vai ver isso no meu trabalho. Eu nem falo "minha obra" porque acho pedante. Prefiro falar "meu trabalho". O tempo todo você vai encontrar isso no meu trabalho.
Cadernos: É disso que decorre a citação de Georges Bataille no poema incluído na quarta capa de Amavisse (1989) - uma espécie de adeus do escritor, que presta contas do que fez -, que diz: "Sinto-me livre para fracassar"?
Hilda Hilst: É isso. É aceitar esse silêncio. Eu não sentia mais necessidade de falar. O Yuri V. Santos, que está aqui ao meu lado, jovem escritor, é um amigo deslumbrante porque ele sabe que eu quase não falo [sobre a "experiência de Deus"] e eu sei que ele também não fala. Ele compreende.
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