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Ainda o Livro de Urântia PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
31 de agosto de 2006

Na verdade, não busco nada no Livro de Urântia. Ele apareceu na minha vida completamente ao acaso - uma amiga me emprestou um exemplar em 1997, lá na UnB, dizendo que eu certamente o acharia interessante - e o li inteiro, pela primeira vez, achando que não lia senão um desses livros que descrevem o mundo de um jogo de RPG. O problema é que o tal "mundo" esboçado por ele é, na minha humilde opinião, o mais vasto e profundo que nossa imaginação pode alcançar. Não é um livro perfeito - não é uma revelação direta de Deus - e tenho minhas críticas a muito do que está ali escrito. Mas o tempo me mostrou que, se a vida é um jogo, ela é um jogo de RPG (Role Playing Game), um jogo no qual desenvolvemos e aperfeiçoamos nossa personalidade, sendo esta um dom de Deus - exatamente o que diz o livro. E, a vida (e não o livro), me confirmou que esse RPG também tem um Mestre, a saber, o Arcanjo Miguel, que esteve entre nós como Jesus. Eu sei que tudo pode parecer muito louco ali. Mas não creio que o universo seja bobo e sem Graça como querem os céticos sistemáticos. A Hilda Hilst, o Bruno Tolentino e o Olavo de Carvalho me ensinaram pessoalmente que a fé não apenas não atrapalha a inteligência e a criatividade como, muito pelo contrário, as estimula e fortalece. Eu sei que não necessito d'O Livro de Urântia para chegar a tal conclusão. Eles não precisaram dele. Mas o planeta Terra precisa.

Chegamos a um ponto da História humana em que uma grande mudança se faz não apenas necessária, mas inevitável. E toda Cultura - que é como Oswald Spengler chama uma Civilização em seu estado de nascimento e desenvolvimento - nasce duma intuição espiritual nova e mais abrangente, duma visão cósmica mais universal, fecunda e cheia de sentido. Jesus fez isso no tocante ao indivíduo, que é o principal, mas a narrativa completa de sua vida e de sua obra - assim como a descrição dos seres, da estrutura e das regras que regem as demais "moradas"- irá, digamos assim, por "ressonância" e influxo idealista, orientar a organização desse nosso variegado e caótico mundo. Pela primeira vez na história conhecida, nosso "mundo conhecido" se confunde com todo o planeta. Os remanescentes das Culturas outrora pujantes - Ocidente Cristão, Islã, Oriente hinduísta, budista, etc. - não se sentem à vontade uns com os outros e temem ser sobrepujados e engolidos pelos demais. Apesar de o Livro de Urântia estar mais próximo daquilo que entendemos por cristianismo, ele vem não apenas confirmar tudo o que este tem de positivo e verdadeiro, mas também purificá-lo de seus erros e malentendidos, o que, por isso mesmo, o fará ir ainda mais longe. Ele não revoga a Bíblia, os Evangelhos e demais livros sagrados. Não. Ele os alarga, esclarece e amplia. Também apresenta muitas questões polêmicas passíveis de gerar conflitos, isto é, se lidas isoladamente do restante da obra. Mas creio que, dum modo geral, os efeitos do livro hão de ser positivos e duradouros a longo prazo. Da mesma forma que o Império Romano não conseguiu se livrar do "imperativo cristão" - e que o Oriente Próximo não conseguiu evitar o Islã - tampouco o planeta Terra conseguirá evitar tornar-se... Urântia, o nome pelo qual é conhecido em nosso Sistema de Mundos Habitados. Eu estou cagando e andando para o que meus amigos, familiares e sei lá mais quem possam achar dessa minha posição. Eu apenas não consigo deixar de imaginar um outro futuro melhor do que esse e, como dizia a Clarice Lispector, imaginar é adivinhar a realidade. Que culpa eu tenho se algumas coisas nascem mesmo póstumas e impossíveis de serem provadas agora? Quem escreveu esse livro sabia disso e nem se deu ao trabalho de assiná-lo. Foi apenas um transmissor? Criou todos aqueles "heterônimos" fantásticos que assinam os capítulos? Eu não sei. Tal imprecisão autoral não impediu que o Pentateuco fundasse uma nação (Cultura) avançadíssima ou que o tribal Islã alimentasse e ressuscitasse a então complexa e decadente Pérsia. Meu maior temor em relação ao Livro era que ele fosse mais um gnosticismo. Mas quanto mais o estudo, mais me convenço de que não é. Mas, bem, essa é uma outra história.

Enfim, a revelação é uma forma de conhecimento possível e legítima da qual o homem é digno. (Vide "O Homem Perante o Infinito", de Mário Ferreira dos Santos.) As pessoas se acham vermes rastejantes abandonadas pelos Céus? Eu não. Deixei isso para trás. Agora sou capaz da fé. Aliás, quando algo ocorre na Europa, não há como nós, aqui na América do Sul, termos acesso a tais fatos senão através do que nos é revelado pelos meios de comunicação. Eles nos transmitem as notícias ou novas. Como confiamos nelas? São verdadeiras? São falsas? Em que medida? Um cético sistemático absoluto certamente não acreditaria sequer que o Saddan Hussein está preso, afinal, são tomé que é, não o tocou com os dedos através das grades duma prisão iraquiana. Muita gente mais paranóica que eu acha que o próprio Bush atacou o WTC. É preciso confiar nas fontes, não é? E as novas nem sempre são "boas novas", que é, aliás, a exata tradução de evangelho: a "boa notícia". Depois de mil e um livros sagrados escritos por inspiração, algum maioral lá de cima decidiu usar um repórter anônimo, afinal, parece que só Maomé é profeta. Os islâmicos não precisam se chatear com o Livro de Urântia. Nenhum profeta reivindicou sua autoria. São apenas notícias que nos chegaram dos confins do Cosmos. Eu não tenho medo de apostar nisso. Vc tem?

 
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Sobre o autor...
Yuri Vieira, 35, é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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