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A culpa é da sociedade PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
22 de junho de 2006

Um filme que vezenquando costuma voltar à minha mente é o Monty Python Live at the Hollywood Bowl. Trata-se da filmagem duma série de esquetes apresentados num teatro da Califórnia pelo engraçadíssimo grupo inglês. Na verdade, a cena que interessa aqui é a do assassinato do Bispo de Leicester, reconhecido graças a uma tatuagem na nuca. Enquanto o casal que o encontra discute se é melhor chamar a polícia ou a Igreja, o filho intervém: "Chame a Polícia da Igreja". Dito e feito, vem ao palco um par de policiais em trajes eclesiásticos em busca de indícios que possam delinear ao menos um suspeito. Interrogam, pois, diversas testemunhas - da forma mais gaiata possível - e, incapazes de descobrir qualquer prova mais substancial, caem de joelhos e pedem a Deus que lhes dê uma luz, que lhes aponte o assassino. Então, diante do estupor dos demais personagens e das gargalhadas da platéia, surge do alto do proscênio uma mão enorme com o indicador em riste a apontar para a cabeça do homicida: "FOOOI EEELE!!!", brada uma voz profunda e cavernosa. Num átimo, a Polícia da Igreja voa sobre o culpado que, à guisa de defesa, não diz senão que sempre foi um injustiçado e que "a culpa é da sociedade". Os dois Policiais da Igreja, convencidos de que ele tem razão, passam a interrogar os demais: "Você faz parte da sociedade? Sim? Então está preso. E a senhora? Também é um membro da sociedade? É? Está presa. E você garoto?" E, assim, toda a sociedade vai parar na cadeia...

Bem, os últimos acontecimentos aqui no Brasil apenas corroboram o fato de que é exatamente este o processo pelo qual estamos passando. Esse discurso politiqueiro que prima pela "justiça social" substituiu completamente o ideal de "sociedade justa", onde cada indivíduo precisaria seguir basicamente a regra de ouro: não fazer ao próximo o que não gostaria que lhe fosse feito. No entanto, essa deturpada justiça social não é senão o modo pelo qual as responsabilidades individuais são diluídas na coletividade, uma vez que, segundo essa gente revolucionária, o indivíduo não tem qualquer valor e muito menos existência real. Como algo desprovido de existência pode assumir responsabilidades? Nessa perspectiva, só a coletividade tem peso nas equações e, sendo a nossa sociedade uma produtora de criminosos, é ela própria a verdadeira criminosa. Se os coitadinhos do PCC, do MLST e do PT podem sair por aí matando, depredando e corrompendo, a culpa não é deles, mas da sociedade que supostamente os forjou, afinal não são capazes de tomar decisões por si mesmos, não possuem livre-arbítrio individual, são um único monstro com milhares de cabeças. E, claro, sua mãe e responsável é a maledetta sociedade.

Por isso, se você é da sociedade, se você faz parte dela, mais dia menos dia estará atrás das grades, sejam estas grades as da sua casa ou prisão, sejam elas as das fronteiras do seu estado, cidade ou país, sejam elas as dos limites do que pode ser pensado, criado, informado, expressado, consumido. Porque os amantes do estatismo e do coletivismo querem fazer a sociedade espiar suas culpas o mais profundamente possível. Para eles, a sociedade é criminosa e não merece a liberdade. O que você acha que Cuba é afinal? Uma sociedade presa, uma sociedade no xadrez. Se seus cidadãos fossem livres, não precisariam fugir em balsas e bóias até Miami. Não ficariam tão isolados do mundo, sem internet e demais meios de comunicação independentes. (Já imaginou? A TV oficial de Cuba se chama TV Rebelde!!!) Os "cidadãos" cubanos têm comida e remédios? Prisioneiros sempre têm essas coisas. Exceto a liberdade de ir e vir.

Enfim, quer botar toda a sociedade na cadeia? Vote no Lula, apoie Fidel Castro e Hugo Chávez, ache lindos o PCC, o MST, o MSLT, o PT e entidades semelhantes. Viva o mal feito! Mas não se esqueça: inocentar culpados é incriminar inocentes. Um dia, isso lhe será cobrado.

 
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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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