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A Comunhão dos Monstros Malucos PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
22 de junho de 2006



Um dos grandes traumas da minha infância - sim, da minha infância "pequeno burguesa" - foi ter perdido, graças a uma aula de catecismo, a reapresentação na Sessão da Tarde do filme de animação A Festa dos Monstros Malucos, de Jules Bass, o mesmo que dirigiu The Hobbit.

Festa dos monstros malucosQuando o assisti pela primeira e única vez - logo após a novela O Casarão (tô velho, hem) - pirei a cabeça. Se fosse hoje em dia, teria feito como meus sobrinhos que costumam assistir ao Monstros SA ou Toy Story trezentas e cinqüenta e sete vezes em menos de quatro dias. O pior de tudo foi ter chegado no Spinosa (colégio paulistano onde estudava) e só ter encontrado alguns gatos pingados na sala, pois a maioria - que não era tolamente CDF como eu era - havia ficado em casa para não perder... The Mad Monster Party! Aaaaaah!! E a sacana da professora - uma mulata hippie bacanérrima - nem pra alimentar meu sentimentozinho de vingança para com meus colegas cábulas: ao invés de passar para o próximo capítulo do livro, deixando-os atrasados na matéria, ficou tocando músicas católicas no violão!

Mad Monster PartyBom, o filme era o seguinte: o Barão Frankstein (que na versão original foi dublado por Boris Karloff) convida todos os monstros conhecidos - Drácula, Lobisomen, Múmia, Dr. Jekill/Mr. Hyde, homem invisível, etc. - para uma festa de confraternização em seu castelo localizado numa sinistra ilha particular. Entre os convidados está seu sobrinho, Felix, um nerd de óculos que obviamente se apaixona pela secretária ruiva do tio, a bela Francesca, ui!, metida em seu vestido chinês de seda amarela. (Aliás, quem é que não se apaixonou pela Francesca? Eu mesmo só fui sossegar um pouco depois de, anos e anos mais tarde, namorar uma gata ruiva. Pena que ainda não era minha Francesca...) O problema é que o tal sobrinho demora a se tocar que aquela gente não é tão normal quanto ele próprio acredita ser. Seguem-se mil e uma confusões e mal-entendidos. Alguns diálogos são simplesmente impagáveis. Na verdade, esse video-clip aí acima me deu ainda mais saudade do filme. Sei que, logo depois da cena retratada, o Lobisomen roubará o fêmur de um dos esqueletos roqueiros e fugirá pra curtir o repasto. Nunca entendi o porquê de esse filme ser tão difícil de encontrar no mercado brasileiro, afinal, toda uma geração o tem socado numa vala do subconsciente.

Festa dos Monstros MalucosPois é, perdi a reapresentação da Festa dos Monstros Malucos na Sessão da Tarde. Ainda bem que, para compensar, curti muito minha Primeira Comunhão. Sério, eu mesmo fiquei surpreso. Eu estava me sentindo tão bem naquele dia, levei tudo tão saudavelmente a sério, que acabei sendo intimado pela diretora (Dulce Spinosa) e pela professora de catecismo a levar o hostiário até o altar. (Nesta foto, na Igreja São Francisco de Assis, Vila Mariana, sigo adiante do meu bróder Marcelo Branco, do Roberto Maia e do José Alexandre.) Nunca mais entrei numa igreja com o mesmo espírito, eu, o então fã número um do Conde Drácula e atual fã número dez elevado a googolplexo (somos muitos) do Lord Djísus. Sim, felizmente ainda não prestava a devida atenção ao que os padres diziam, esses... esses... humanos. Hoje em dia só tenho ido às igrejas para assistir ao casamento dos meus amigos e parentes, esses monstros malucos...

 
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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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