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Bonecos e bonecos PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
28 de novembro de 2002

Tempos atrás o tal do Supla lançou seu clone no mercado. Desculpe, seu boneco. Nada contra, se eu ainda brincasse de Falcon - coisa que eu adorava fazer (tenho um Falcon paraquedista até hoje) -, seria muito legal ter um outro boneco para usar como vilão. O Tórak sempre me pareceu muito sem sal, sem graça pra burro, sem falar que aquela lampadazinha nunca me convenceu como laser. Já o do Supla seria, no mínimo, um vilão pentelho, do tipo que o Falcon adoraria dar umas porradas, uns tiros, tentando calá-lo de uma vez por todas. Aliás, o Supla é o primeiro a pregar o vodu contra si mesmo: "Sempre quis ter um boneco para fazer um vodu e ficar espetando. (...) Se alguém quiser falar mal pode comprar e me espetar". Se ele soubesse do que está falando... Quem não tem o que dizer, é melhor mesmo que se limite a vender a própria casca.

Ao contrário dos bonecos do burgo-punk paulista, há outros que realmente me põem a cabeça à roda. Se você visitar a britânica Jesus Christ Superstore, encontrará uma coleção que deixaria Maomé e Moisés com muito trabalho pela frente. Enquanto esses dois condenavam o uso de imagens e ídolos enquanto objetos de adoração, esses caras da Superstore têm a pretensão de, ao vender certos bonecos, de "levar a diversão de volta ao fundamentalismo e o riso à matança sectarista" (se é que meu inglês não está enganado). Mas... certos bonecos? Que bonecos? Esses: Jesus ("the father, the son, and the bad motherf..."); Deus Todo-poderoso ("includes Kingdom-Come Kalashnikov AK-47 assault rifle"); Papa ("his hardness, God's mortal messenger"); Krishna ("Cosmic Warrior and lover of many women"); Rabino ("'Kosher Kill' sniper automatic handgun and Jehova mklll silencer"); Aiatolá ("wearing Kohmeni Midnight Warrior yashmak"); Buda ("Magnum66 automatic Nirvana pistol"), etc., etc. Considerando que tenho um senso de humor um tanto quanto afiado, não pude deixar de dar umas risadas ao passear pelo site. A embalagem vazia - dentro da qual supostamente se encontra o boneco de Alá ("He who may not be shown") - nos deixa a pista de que tudo talvez não passe de uma brincadeira. Afinal, quem em sã consciência - nesses tempos que beiram a guerra santa - ousaria vender bonecos de seres sagrados armados até os dentes? Arrisco uma resposta: muita gente. (Aliás, o boneco "Islamic Jihad" é o único fiel à realidade. Se o Rabino fosse apenas um "judeu ortodoxo" também seria real, pois já vi vários armados na TV.) Dizem eles que estão tentando vender o projeto a alguma fabricante de brinquedos, uma vez que todos os exemplares são feitos à mão. Será sério? Bom, sabemos como é a maior parte das coisas que nos chegam pela Internet: puro amontoado de pixel e nada mais.

Por outro lado, como encararia as religiões um garoto que passasse suas tardes brincando com esses bonecos? Difícil dizer. Não acho que passariam a "se divertir com o fundamentalismo" e a "rir de massacres perpetrados por fanáticos". Eu por exemplo fui - pelo que me lembro - um bom roteirista das missões seguidas pelo Falcon, pelo Cavaleiro Solitário, Capitão Nemo, Cornélios (planeta dos macacos), entre outros bonecos que tive. Claro, adorava tiroteios e sempre rolavam algumas baixas. Mas buscava sempre o verossímil, afinal, crianças não são irracionais. No entanto, quais ações seriam verossímeis para um Dalai Lama armado? Provavelmente uma criança passaria a encarar toda essa "gente sagrada" como se fosse um desses deuses e semideuses gregos, esses cheios de poderes, paixões, vícios e veleidades. Enfim, aprenderiam por osmose ou a ser pagãos politeístas - rebaixando a importância do sagrado - ou novos iconoclastazinhos, ou seja, crianças "normais". Já outros, filhos de pais totalmente seculares, chãos, ouviriam falar pela primeira vez a respeito de Alá, Krishna, Jesus e, quem sabe, até largariam as "divinas" AK-47, AK-12, Walter PPK's e passariam a se interessar por esses Seres. Talvez até passassem a respeitá-los. A vida costuma ser irônica. Bom, são apenas possibilidades. A única certeza é que vivemos num mundo que coloca Supla e Deus Todo-poderoso no mesmo saco de Papai Noel, um mundo que trata a todos da mesmíssima forma: como cascas de plástico cheias de nada.


PS.: Quando já ia publicar este post, recebi mensagem do Felipe Mônaco - da "Louco por bonecos" -, dizendo que esses bonecos aí são tão somente "Star Wars pintados por cima". Mais uma prova de que são mera arte-pop travestida de piada. (Valeu, Felipe!)

PS2.: Prestem atenção na imagem da santa ceia da Jesus Christ Superstore...

 
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Sobre o autor...
Yuri Vieira, 35, é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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