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Saudades do Chico PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
05 de fevereiro de 2006

Não, não é o Buarque, é o das Chagas mesmo, o caseiro da Casa do Sol. Claro que estou, meses e meses após ter saído de lá, com saudades das conversas malucas com a Hilda Hilst. Mas é que o Chico fazia um contraponto excelente a esses papos mirabolantes. Bem humorado, cheio de ditados populares, a mente ágil, o geminiano Chico sempre teve o dom de levantar o astral à sua volta. A Hilda, divertida, estava sempre recorrendo ao dicionário para compreendê-lo totalmente, como quando ele disse estar com "estalicídio", que descobrimos ter origem no latim stillicidiu e que não era outra coisa senão "coriza". Uma vez, enquanto eu estava no computador, o Chico veio me trazer um recado e me perguntou se aquilo era a famosa Internet. Sim, respondi, e lhe expliquei mais ou menos o que significa e como funciona este meio de comunicação revolucionário, o qual tem prendido a atenção de milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo. Em seguida, tendo o computador travado em meio ao blablablá - era um 486 DX100 - ele me sugeriu que eu fizesse a "reza da cabra preta" cada vez que fosse ligá-lo. Dei risada e lhe disse que isso talvez funcionasse lá na cidade dele, no interior do Rio Grande do Norte. E ele:

"Nada, rapaz, lá no sertão, internet é burro comendo milho..."

Como é que é?!, indaguei, sem alcançar o significado de tão profundo Koan.

"É que lá na minha cidade acontece tanta coisa", disse ele, "que num tem nada que prenda mais a atenção que isso: quando um burro come milho, todo mundo pára pra oiá..."

Outro dia em que dei risada - vejo aqui no meu diário - foi quando, ao conversar com a Hilda sobre paranormalidade e kundaline, o Chico entrou no escritório dela, dizendo que estava com dor no "espinhaço". Ele então foi botar água na tijela dos cachorros e a Hilda, brincando, me disse que provavelmente a dor seria proveniente da kundaline dele. Assim que ele voltou, perguntei:

Chico, e a sua kundaline?

Ele, gaiato que só: "Minha o quê? Cu da Aline?" Eu: A sua cobra, Chico. Tá em pé ou tá enrolada? E o cara: "Tá de lado, por quê? Tem algum recado pra ela?"

A Hilda até engasgou de tanto rir...


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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