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O Quasímodo é lindo PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
26 de janeiro de 2006

Ontem, minha amiga Paola Antonácio, arquiteta que recém concluiu seu mestrado na Espanha, me contou algo impressionante: ela estava na Harold's, a famigerada loja de departamentos londrina, quando, de repente, a um metro do seu narizinho, deparou com ninguém mais ninguém menos que... Michael Jackson! Claro, o cara, além dos filhos - pelo jeito aquele garoto sobreviveu à aventura da sacada do apartamento -, o cara estava sendo seguido por todos que o viam, tal como um planeta a seqüestrar, durante sua translação, meteoróides e outros detritos espaciais. Nuvens de consumidores o acompanhavam enquanto ele admirava, tranqüilamente, prateleiras apinhadas de eletrodomésticos. Mas o espantoso não era isso - encontrar-se com o Michael Jackson? ora, que bobagem - mas sim o fato de que, segundo Paola, ele era lindo! Sim, ela nunca vira antes uma disposição tão aristocrática e serena, nunca vira cabelos tão bonitos, brilhantes e sedosos, uma pele (sim, branca) tão delicada, um nariz tão... feito sob medida, ora essa.

"Que tem isso?", fez Paola. Para ela pouco importa se ele foi ou não montado em várias sessões de cirurgia plástica. A questão é que, segundo verificou com seus próprios olhos, todas deram certo, o cara ficou bonitão, lindão mesmo.

"Mas e essas fotos horrorosas nas revistas?", inquiri.

Tudo intriga, conspiração, inveja. Só porque o cara, além de ser um puta músico e um super dançarino que mudou a história da música pop, também quis mudar a própria aparência, caíram todos em cima. Sim, porque em nossa época politicamente correta, ser negro é supostamente uma benção absoluta e ninguém que o seja tem o direito de mudar a natureza, de querer ficar diferente do que é. Se o branco pode virar rastafari, encher-se de dreadlocks, bronzear-se, por que um negro não pode fazer o contrário? Na verdade, o Michael, cheio de ritmo que só, continua mais negão do que nunca - só que por dentro. Se ele quer ficar diferente por fora, que o faça, qual o problema? A vida e o dinheiro não são dele, porra?

E toda essa conversa me lembrou um email que andou circulando recentemente, um email cheio de fotos de atrizes hollywoodianas em sua condição mais rotineira, isto é, a humana, na qual a feiúra dá as caras várias vezes ao dia. Havia fotos assustadoras da Gwyneth Paltrow, da Drew Barrymore, da Susan Sarandon, da Cameron Dias e várias outras, que deixariam um menino como eu insone por muitas noites, morrendo de medo de ser atacado na caminha por uma horrorosa atriz de HollyWood. Credo, que meda!

A imprensa tem realmente um poder do cão.

 
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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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