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O Jeca do Presidente Lula Molusco Calça Quadrada PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
03 de dezembro de 2005

Cássia Queiroz - my ex, atual maninha - me conta que seu pai teve uma fazenda enorme no Pará. Seu vizinho mais próximo morava a apenas 100Km de distância, um pulinho. (Coitado do entregador de jornal.) Quando criança, Cássia ganhou do seu pai um bichinho que toda criança sadia adoraria ter: um tatu. Toda imaginosa, a doce e sapeca menininha loira - sim, ela já foi loira - amarrava uma corda de sisal numa das patas traseiras do semovente e, cheia de maquiavelismo infantil, deixava o pobre cavar, cavar, cavar até sumir-se em seu buraco de terra fresquinha. Ao notar que só lhe restava uma pontinha de sisal nas mãos, Cássia metia-se a içar o iludido animal de volta à tona. Felizmente aquela vivência do mito de Sísifo não se agitaria senão numa mente autoconsciente, coisa totalmente alheia a um tatu, cujo sofrimento se resumia à mera linguinha dependurada pelo esforço vão e a seus olhinhos arregalados pelo instinto de sobrevivência. Mas isso não significa que seja fácil ser um animal irracional...

Que o diga nosso Presidente Lula Molusco Calça Quadrada, o Jeca que se deu "bem". Sim, o cara é a mistura alquímica da esperteza do Lula Molusco com a aparência de inocência que só um Bob Esponja Calça Quadrada poderia de fato ter. Mas antes de adentrar na analogia, veja como o Aurélio define o verbete lula:

Molusco cefalópode, dibranquiado, decápode, da família dos loliginídeos (Loligo brasiliensis Blainv.), do Atlântico, de coloração amarelada com manchas escarlates, podendo mudar de cor segundo com o meio ambiente, corpo alongado, com nadadeiras triangulares do lado oposto à cabeça, provido de dez tentáculos com ventosas, dois dos quais são mais finos e alongados. Sua carne é muito estimada nos mercados.

Coloração amarelada, sei. Cá no Cerrado, costuma-se dizer que "fulano amarelou" quando o tal não cometeu senão um ato de covardia. Covardia essa, no presente caso, salpicada de escarlate, isto é, de estrelas vermelhas. Quem acompanha as notícias políticas - eu por exemplo bato ponto no Primeira Leitura - não pode deixar de notar, em nosso presidente, esse comportamento típico dum loliginídeo: o cara vive amarelando cada vez que é solicitado a dizer a verdade - ou no mínimo a tomar uma posição (Palocci X Dilma, candidato X não-candidato, assassinato de Celso Daniel X "acidente", mensalão X que mensalão?, traição X que traidor? e assim por diante) - e, embora fique agitando em nossos narizes suas inclinações socialistas, vive mudando de cor conforme a necessidade do apoio de outros partidos. Agarra-se a suas bravatas, mentiras e deselegâncias verbais com dez tentáculos de ventosas, enquanto todos se esforçam para engoli-lo como se um comportamento distinto fosse preconceito com sua fala ceceante de quem se expressa por duas brânquias. "Coitado do Jeca Lula! É apenas um pobre dibranquiado!", e vão passando as mãozinhas em sua cabeça. E tudo isso por quê? Ora, porque sua carne é muito estimada nos mercados. Como se a tal estabilidade econômica fosse não apenas obra deste governo ridículo, mas também um valor acima da consciência moral. Monteiro Lobato teria verdadeiros engulhos se assistisse a um discurso de tão jecoso estadista.

Agora vou resumir. Toda tentativa que o Lula faz para parecer profundo, sábio, benevolente, toda tentativa de mostrar que ainda tem nas mãos o controle, não passa duma escavação de tatu interrompida por sua sapeca, maquiavélica e loira ignorância. O cara não passa dum Lula Molusco espertalhão que engoliu um cofre de dinheiro sujo - para bancar sei lá qual Reich de vinte anos - cofre esse que, santa coincidência, o deixou com a bunda (e a calça) tão quadrada quanto a do inocente Bob Esponja, o Forrest Gump dos desenhos animados. Mas não se engane, Lula não é inocente. No fundo no fundo, o cara não é senão a prova de que ainda somos um povo de Jecas incapazes de consciência moral, um povo incapaz de se indignar e de se livrar dos vermes que sugam o sangue dos poucos que ainda tentam produzir e criar algo de decente neste país. Cada povo tem o Governo que merece.


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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