 yuri vieira Yuri Vieira, nascido às quatro e quinze da matina de um 24 de Outubro, é paulistano. Infelizmente não estudou no mesmo colégio em que estudaram próceres tais como Machado de Assis ou Guimarães Rosa, os quais, por sinal, nem paulistas eram. Mas estudou no mesmo colégio que a Ana Paula Arósio(!), muito mais bonita que ambos... Aliás, foi ela quem estudou no mesmo colégio que Yuri, posto que ele já era um veterano de dez anos de idade quando ela apareceu por lá. Mas tudo isto é pra dizer que, em 1975, em seu primeiro dia de aula, Yuri deu uma tremenda dentada na mão da Tia Dulce, que não cometera outro crime senão o de ser a Diretora do Jardim Escola Visconde de Sabugosa. ("Até hoje ela tem a cicatriz", ele jura.) Bom, acontece que a rebeldia do garoto para com os meios educacionais permaneceu intacta desde então. Não que ele tivesse se tornado mau aluno, coisa que nunca foi. Mas embora seu corpo sempre comparecesse às aulas, sua mente gostava mesmo era de ir longe, aos cumes, muito além dos programas incutidos pelo MEC. (Tudo culpa da biblioteca de sua família, da TV e do Atari.)
 O Tungurahua, no Equador, onde Yuri quase bateu as botas... (Foto: Pete Hall)
Quando Walter, seu pai, se aposentou, Yuri mudou-se com a família para Goiânia, onde, para sua adolescente surpresa, não encontrou índios, onças e tatus andando pelas ruas, mas uma cidade que infelizmente cresce ano a ano em progressão geométrica. (Ainda bem que, nos sítios e fazendas próximas, os discos voadores sejam mais comuns que as onças...) Ainda em Goiânia, com amigos locais e de São Paulo, criou o GEMBLA: Grupo de Excursionistas e Montanhistas Bêbados Loucos e Alucinados, com o qual viajou para diversos Parques Nacionais, praias e cavernas do Brasil. Do centro-oeste, este futuro escritor de fato - pois já era de feto - se mandou de intercâmbio estudantil não para os esteites, ou canadá, ou gringuices semelhantes senão para o - pasme - Equador.
 No cume do vulcão Tungurahua - o Garganta de Fogo - de 5080m... Foto: arquivo pessoal.
Lá morou em duas cidades: Quito e Latacunga. Nesta última, aos 18 anos, começou a publicar crônicas e contos no principal jornal da cidade, o El Día. Também ingressou num grupo andinista - alpinismo é nos Alpes, viu -, tendo escalado, entre outros, os nevados Illiniza Norte (5100m), Rumiñahui (4850m), Corazón (4800m) e os vulcões ativos Cotopaxi (5890m), Tungurahua (5080m) - do quechua Garganta de Fogo - e Guagua Pichincha (4910m). Estes dois últimos entraram em erupção em 1999. (Antonio Naranjo, pai de intercâmbio, escreveu ao Yuri:
 O vulcão Tungurahua em erupção, Equador - 1999. .
"(...) estamos sumamente preocupados por la activación de tus volcanes (...). Pero te digo que el espectáculo infernal de la erupción, los hongos que se forman luego de las explosiones, son una cosa lindísima de se mirar (...). Quisiera que tú estuvieras aqui y los vieras en persona." Ainda no Equador, Yuri estudou espanhol e teve seu primeiro contato com os estudos filosóficos através de Bruno Galas, missionário italiano, então diretor do Colegio Hermano Miguel, que o alertou - sem ser então compreendido - para os perigos do panteísmo e da crença num Deus não pessoal. Também foi salvo por um terremoto que, derrubando de forma misteriosamente simbólica a pesada máquina de escrever sobre o frágil violão, tirou-lhe o destino de péssimo músico para lhe dar o de um escritor que promete.
 No Cotopaxi, antes da tempestade...
De volta ao Brasil, como não havia faculdade de espionagem ou vampirismo - seus heróis de infância eram o 007 e o Drácula (lembra da mordida na diretora?) - Yuri resolveu que o curso de Jornalismo seria o substituto ideal. Foi o princípio de uma série de decepções. Deste curso saltou para Engenharia Civil, depois - já na Universidade de Brasília - tentou Engenharia Florestal (meros resquícios de idealismo ecológico), Letras e Artes plásticas(habilitação em Teoria, História e Crítica de Arte), sem se formar, por pura insatisfação ("a universidade é medíocre") e erro estratégico ("a vida não é melzinho na chupeta"), em qualquer um deles. Mas concluiu um curso de extensão - Processo de criação cinematográfica (do roteiro ao filme) - com o "mulherengo" Nélson Pereira dos Santos, e um projeto de iniciação científica do CNPq - Rever, reler, recriar -, o qual tratava das releituras artísticas pelas novas tecnologias. Seu trabalho foi aprovado com louvor.
 Yuri, durante escalada do vulcão Cotopaxi, de 5890m.
"Mas meu livro é meu diploma", afirma com otimismo, após comentar ironicamente que pelo jeito só entrou na universidade para ler bons livros, discutir interminavelmente, arranjar namoradas, "pirar o cabeção", andar de bicicleta e jogar capoeira. Apesar de haver encontrado um ou outro professor digno de respeito - como, por exemplo, o excelente Flávio René Kothe (de quem foi monitor), de Teoria e Crítica Literária -, após sete anos de estudos universitários e viagens candangas, Yuri purgou-se da experiência escrevendo o livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau (1997), que recebeu elogios de Millôr Fernandes, Bruno Tolentino, Sérgio Coutinho (Observatório da Imprensa) e o seguinte comentário do escritor Olavo de Carvalho (articulista das revistas Bravo, Época e dos jornais Zero Hora, Folha de São Paulo, O Globo, Jornal da Tarde e Diário do Comércio):
 Os Toalhas (1994). O Yuri, claro, é o vocalista... Foto: Dante
"Prezado Yuri, andei lendo seus contos. Raras inteligências perceberam tão bem quanto a sua o vácuo atormentado da sua geração. Não creio que essa experiência pudesse ser descrita senão pela mistura do engraçado e do tétrico, que você consegue dosar com muita habilidade. O Abominável Homem do Minhocão me deixou num estado indefinido entre o tremor de riso e o tremor de medo. Estou muito satisfeito de ter lido este livro. Muito obrigado. (...)"
 Os Toalhas (banda virtual), na UnB. Da esq. p/ dir.: Alfredo Bello, Ricardo Calaça, Alex Cojorian e Yuri.
Daí, voltou a São Paulo onde comeu o bolo, o biscoito e o pão que o diabo amassou - "Ainda me vingo do capeta!", ri-se - tendo feito também, diversas vezes, papel de bobo. (Veja foto abaixo.) Escreveu crônicas durante quase dois anos para a Revista Guia da Farmácia, que o salvou da fome, e para as revistas HypeBook, Simples, Revista da MTV, A Nível De, DF Letras e, mais recentemente, para o Caderno Pop do jornal O Popular (Goiânia), e para os sites Rave On e EletronicBrasil. Após completar seu "doutorado em pirações" - o mestrado foi feito no alojamento da UnB -, morando na Vila Madalena, fazendo bicos numa produtora de cinema (Chroma), freqüentando raves e sendo sócio de um estúdio fotográfico, o Base 1/Blow Up, Yuri conheceu a poeta Hilda Hilst, em 1998, com quem residiu durante dois anos, fazendo as vezes de secretário e webmaster.
 Com Nélson Pereira dos Santos na UnB, em 1995.
Em 1999, divertiram-se paranoicamente com as ameaças de fim do mundo. Na Casa do Sol, residência da escritora, conviveu ainda com o poeta, ex-professor de Oxford e ex-detento da Ilha do Diabo inglesa, Bruno Tolentino ("os professores me perseguem..."), com o escritor espanhol José Luís Mora Fuentes, com Francisco das Chagas (fugitivo da seca nordestina), com Antônio Ramos (ex-morador de rua), com eventuais visitantes e, claro, com oitenta cães. "Ali rola cada conversa..."
 Yuri e Hilda Hilst na Casa do Sol, 1999. Foto: Ana Kfouri
Atualmente, após trabalhar como monitor do diretor de fotografia Dib Lutfi (Terra em Transe, Como era gostoso o meu francês, etc.), e sem os entraves da sociedade no estúdio - quebrado graças a uma multa traiçoeira e injusta de R$30.000,00 emitida por um dos membros da "máfia dos fiscais" de São Paulo -, Yuri prepara um roteiro que será rodado por ele mesmo e por Miriam Virna, diretora teatral de Brasília, e mais dois livros: "L.S.D.eus - Contos Extáticos" e "Eu odeio terráqueos!! - Confissões de um extraterrestre". Em Abril de 2007, dirigiu em parceria com Cássia Queiroz seu primeiro curta-metragem de ficção, cujo roteiro também escreveu - Espelho -, e que recebeu o prêmio de Melhor Direção do 3.o FestCine. Também colabora com os sites Digestivo Cultural e O Expressionista e edita o blog coletivo O Garganta de Fogo. "Por enquanto vai indo bem", afirma uma amiga do planeta Urano.
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