Pesquisar
  Início arrow Todos os textos arrow Governo Brasileiro

Governo Brasileiro PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
11 de novembro de 2005

Depois de ter sido preso pelo "crime de sinceridade" - escrevera uma carta esperançosa ao Getúlio Vargas cheia de conselhos e reclamações contra o Conselho Nacional de Petróleo -, Monteiro Lobato finalmente perdeu as esperanças para com o futuro do Brasil sob tão terrível governo.

Já nos anos 1920 falava dos "trinta governos militares", que sobrevinham um após o outro desde 1889, e do perene estado de sítio que o Brasil vivia. Falava dos impostos absurdos que sangravam a indústria, o comércio, sua editora e matava o produto brasileiro que se via assim impedido de competir com os produtos estrangeiros. (Um livro português era mais barato que um livro - em branco!!! - feito no Brasil.) Ficou horrorizado quando o Poço Lobato, na Bahia, primeiro jorro de petróleo em terras brasileiras graças à iniciativa privada, foi fechado pelo governo - o qual aliás havia declarado que naquela região não havia hidrocarbonetos - tendo sido, em seguida, enfeitado com um obelisco e os dizeres: "O Primeiro Campo Onde Jorrou Petróleo no Brasil - Organização do Conselho Nacional do Petróleo no Governo do Dr. Getúlio Vargas". Ao acusar o roubo estatal, foi preso. Mais tarde, descobriu que a Standard Oil Company, dos Rockefeller, - impedida por lei de dominar a extração de petróleo nos EUA - já mapeara todas as áreas petrolíferas do Brasil, isso desde o início do século, e por isso comprava nossos políticos para manter o monopólio ao menos nessas bandas. Assim, enquanto nos EUA eram abertos poços de petróleo particulares numa taxa de 20.000 ao ano - desde meados do século XIX - no Brasil, o primeiro poço era então tomado pelo governo e os demais impedidos de funcionar por contradições legais: enquanto uma lei do famigerado Conselho proibia estrangeiros de participar como acionistas das companhias petrolíferas nacionais - e para ser considerado um estrangeiro bastaria possuir um sobrenome de origem estrangeira - um artigo da constituição proibia os diretores de empresas de excluir sócios devido à sua nacionalidade... Logo, a burocracia local - aliada à safadeza de capitalistas selvagens estrangeiros - travou nossa livre iniciativa, o nosso capitalismo. (Não é à toa que o corolário de todo esse processo, a Petrobrás, seja aquilo que é - uma financiadora de politiqueiros malandros.)

Em 1932, quando os paulistas tentaram se livrar da opressão do governo federal, a cidade de São Paulo foi bombardeada por tropas legalistas. Segundo Lobato, morreram mais civis e foram destruídas mais casas em São Paulo, durante esse bombardeio, do que em Paris, na Primeira Guerra, que recebeu canhonaços alemães. Dizia o telegrama presidencial: "S.Paulo desrespeitou o princípio da minha autoridade; que S.Paulo deixe de existir". Não fosse o milionário Macedo Soares - hoje nome do trecho que une a Marginal Tietê à Marginal Pinheiros - e os paulistas teriam perecido de fome, frio e sede. Soares bancou tudo, comida, água, cobertores, roupas, abrigos para os feridos e desalojados.

No artigo Os tratados com a Bolívia, Lobato finalmente desabafa e joga a toalha:

Chega. Não quero nunca mais tocar neste assunto de petróleo. Amargurou-me doze anos de vida, levou-me à cadeia - mas isso não foi o peor. O peor foi a incoercível sensação de repugnância que desde então passei a sentir sempre que leio ou ouço a expressão Governo Brasileiro...

{moscomment}
 
< Anterior   Próximo >



Menu principal
Início
Blog
Artigos e crônicas
Contos
Poemas
Cartas
HQs
Todos os textos
Meu curta-metragem
Pesquisar
Livro de visitas
Opiniões alheias
Outros autores
Livros online
Mais lidos
Textos recentes
AdSense
Login





Esqueceu sua senha?
Sem conta? Crie uma
Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
Leia mais...
 
Use AdSense

Firefox

Gostou?

Technorati

Add to Technorati Favorites
Skype Me

Skype me
Syndicate

RSS do Blog
RSS do AudioBlog
Creative Commons

Licença Creative Commons
Total de visitas

† 2000 - 2008 Yuri Vieira dos Santos. Some rights reserved.
Powered by Joomla!.