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Choque de Civilizações? PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
14 de julho de 2005

Esses ataques terroristas perpetrados por membros de fato e/ou postiços da Al Qaeda não tem, na minha opinião, nada a ver com o famigerado "Choque de Civilizações". Primeiro porque a Civilização Árabe/islâmica (Spengler), na qual esses terroristas teriam origem, já não existe há séculos. O que existe são fragmentos dessa extinta civilização remexendo-se feito rabo cortado de lagartixa. É gente desesperada lutando pelo leite derramado e desejando o impossível: o estabelecimento de um califado mundial. Sua força diante do Ocidente reside no fato de haver um local chamado Meca, uma certa Caaba - em torno da qual se reúnem os "pares" - e um livro chamado Corão. Possuem, pois, uma "cola" espiritual que ainda une tais pedaços e, não fosse ela, há muito teriam sido absorvidos pelo Ocidente. O Islã é um software demasiado pesado para um hardware - leia-se, estrutura sócio-política - dos mais ultrapassados.

Já o Ocidente não passa de uma Civilização em contínuo processo de desmembramento. Vive uma fase que o Islã viveu séculos atrás. Nossa unidade espiritual - diante da unidade islâmica - é uma veleidade de velhinhas intelectuais corocas, um verdadeiro grude de polvilho diante da SuperBonder muçulmana. Se eles, os islâmicos, tivessem um hardware potente como o dos americanos, estaríamos lascados. Daí as mil e uma conexões políticas possíveis, cheias de interesses bélicos, entre essa gente e certos países revolucionários, que nada têm de religiosos, enquanto o Ocidente finge unir-se sob as asas de um monstro político disfarçado de cordeiro: a ONU. De um lado, tenta-se uma unidade estratégica para combater materialmente superpotências européias e americanas; de outro, isto é, de cá, emula-se uma unidade espiritual através da difusão de idéias globalistas, ecológicas e humanistas, que visam tão somente apartar de si a descarada realidade: o Ocidente também já era. Somos um hardware extremamente pesado e veloz para um sistema operacional dos mais rarefeitos e cheios de conflitos e vírus ideológicos. Fora da tradição herdada, não há no Ocidente qualquer unidade espiritual. E mesmo que tal tradição fosse restaurada - como alguns pretendem e sonham - jamais lograria englobar neste suposto renascimento o mundo islâmico. A tradição judaico-cristã, da forma que a conhecemos, sempre encontrará resistências. Para superá-las, neecessitaria de um upgrade.

O Antigo Testamento surgiu para alçar um povo ao papel histórico de guia espiritual, ao papel de portador da notícia de que há um só Deus. Tal missão se cumpriu. O Novo Testamento veio para edificação dos gentios sendo, por isso, um upgrade do primeiro Testamento, afinal, se um povo foi guia, isto não significava que os demais estavam excluídos do Plano Divino. Já o Corão veio para combater o politeísmo das tribos árabes, berberes e similares, que até então não estavam amadurecidas o suficiente para receber o Evangelho. Sim, toda cultura, toda civilização tem um pretexto - um pré-texto. Nada vem do nada. Choque de Civilizações? Não, choque de textos, as civilizações já estão desarticuladas há muito, mas seus núcleus ainda vagam por aí. O mundo deve se preparar, portanto, para o próximo upgrade e deixar de lado a luta entre os já defasados Sistemas Operacionais do Espírito: visão de mundo ocidental X visão de mundo islâmica. Os núcleos precisam fundir-se. Hoje, somos um mundo só, um único planeta. E o upgrade do novo Sistema Operacional já está disponível para download. Deve ser efetuado individualmente.


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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