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A vitória de Schiller e Beethoven PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
01 de junho de 2005

Beethoven ficou fulo de raiva quando soube que Goethe havia se inclinado reverentemente diante de Napoleão. Beethoven, que havia dedicado uma de suas sinfonias ao heróico corso, a Terceira, se arrependera amargamente por tê-lo feito, afinal, Napoleão não passava de mais um conquistador cheio de vontade de domínio. Libertar a Europa das coroas? Besteira, ao coroar a si próprio, Napoleão desmentiu qualquer veleidade nesse sentido. Mas, conforme sabemos, ao fim e ao cabo Napoleão dançou, foi tirar férias permanentes em Santa Helena. E a Europa ficou livre. Dele, Napoleão. Mas não de Beethoven e de Schiller, autores involuntários do hino da União Européia - o quarto movimento da Nona Sinfonia - aliás, e ainda bem, uma das poucas unanimidades entre os países membros. O imenso Não da França e da Holanda, no plebiscito que visava ratificar a Constituição Européia, prova que ainda há gente de olho na possibilidade totalitária. Ninguém quer uma influência alheia se intrometendo perenemente em seus assuntos locais. O corolário disso tudo é que a política jamais terá o poder da arte. Sim, porque pertence apenas a esta última a prerrogativa de conquistar corações e, por conseguinte, vontades. Sempre que a política se mete por esse caminho cria monstros, tais como Hitler, Mussolini, Stálin, Mao, Castro e farinhas do mesmo saco. Homens que apelam aos corações de modo relativamente positivo até entram para a história. Mas participam da vida mais como símbolos que como estadistas. (Vide Alexandre ou César.) Na verdade, quanto mais dementados existirem numa nação, mais apelos insidiosos serão emitidos ao coração do povo. Mas uma vida política sã só se dará no contato lúcido das mentes. E se a mente é serva do coração, este, por sua vez, não deveria pertencer a ninguém deste mundo. Os grandes estadistas sempre foram homens de razão lúcida com o coração devotado a algo muito maior que suas próprias idéias. Como bem sabia Beethoven ao escolher o poema abaixo, de Schiller, para o quarto movimento de sua Nona Sinfonia:

Froh, wie seine Sonnen fliegen
Com alegria, como os corpos celestes
Durch das Himmels pracht'gen Plan,
Que Ele colocou em seus cursos pelo esplendor do firmamento
Laufet, Bruder, eure Bahn,
Então, irmãos, sigam seus caminhos
Freudig wie ein Held zum Siegen.
Alegres, como um herói rumo à conquista.

Freude, schöner Götterfunken
Alegria, linda faísca divina!
Tochter aus Elysium
Filha de Elysium
Wir betreten feuertrunken,
Inspirados pelo fogo, nós marchamos
Himmlische, dein Heiligtum.
Divino, Teu santuário
Deine Sauber binden wieder,
Tua magia reúne
Was die Mode streng geteilt;
O que o costume severamente separou
Alle Menschen werden Brüder,
Todos os homens se tornam irmãos
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Sob o suave balanço de Tua asa.

Seid umschlungen, Millionen!
Milhões, um abraço a vocês!
Diesen Kuß der ganzen Welt!
Este beijo é para todo o mundo!
Bruder - uberm Sternenzelt
Irmãos - acima da cúpula estrelar
Muß ein lieber Vater wohnen.
Deve morar um Pai que nos ama.

Ihr stürt nieder, Millionen?
Milhões, vocês se ajoelham?

Ahnest du den Schopfer, Welt?
Vocês percebem o Criador, Mundo?
Such ihn uberm Sternenzelt!
Procurem-No nos céus!
Uber Sternen muß er wohnen.
Ele deve morar além das estrelas.


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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