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Lebenswelt PDF Imprimir E-mail
Por Pedro Sette Câmara   
25 de agosto de 2003
Ahnest du den Schöpfen, Welt?
(Você percebe seu Criador, ó Mundo?)

Schiller, Ode an die Freude

Todas as pessoas que querem "um mundo melhor" não têm a menor idéia de como seja o mundo real. São pessoas que tomam a essência da realidade por seus aspectos mais exteriores, travestidos de um sentimentalismo fabricado em agências de publicidade, cujos funcionários, por sua vez, têm tendências marxistas ainda que não sejam capazes de citar uma única linha de O Capital ou de qualquer outra obra de Karl Marx. Para demonstrar isto, basta lembrar que o socialismo, apesar de todas as suas dezenas de milhões de vítimas, é identificado com "o Bem".

O que define o marxismo, assim como seu pai, o epicurismo, é justamente a falta de amor à realidade, ao mundo como tal. Não vá pensar o leitor que a minha coluna se chama "O Mundo Como Mundo" por um desejo de brincar com palavras, mas sim por já declarar guerra a priori a qualquer tentativa de impor um conceito inventado por mim à realidade das coisas, que eram de um jeito quando eu nasci e continuarão sendo deste mesmo jeito quando eu estiver sentado no assento etéreo.

Mas eu não tenho a intenção de, neste artigo em particular, ficar esmiuçando as podridões marxistas. Quero ir muito mais fundo e mostrar que a porcaria inicial está no simples desejo de sobrepor um conceito à realidade, de inverter a ordem e tentar impedir a prática de desmentir a teoria. O desejo de transformação do mundo nasce justamente desta arrogância infantil, da pretensão de entrar na obra de Deus como co-autor, sem perguntar a opinião do autor - e, na maior parte dos casos, dizendo até que Ele não existe - associado à simples incapacidade de perceber o que de fato vem a ser o mundo. Como não se sabe o que é, por que não acreditar que uma invenção da imaginação tem o status de realidade? Afinal, para uma cabeça destas, o mundo é construído, e não dado. E aí o ódio ao burguês ou ao judeu se torna, kantianamente, uma categoria a priori na mente: se o mundo é construído pelo sujeito, e não percebido por ele, então eis justificada qualquer posição a respeito de qualquer coisa. O problema é que o mundo é dado, e não construído. Deus não pediu a ajuda de ninguém para fazer o mundo e muito menos entregou o conserto dele para qualquer pessoa, como se achasse que devia levá-lo à oficina ou algo assim. Então, antes de querer sair alterando tudo por aí, qualquer um que tenha esses surtos deveria se fazer essas perguntas, ao invés de tomar seus simples sentimentos, suas projeções, como explicações globalizantes e imperativos categóricos para tomada de ação.

Especialmente porque Deus não é um sentimento e muito menos um passo dado no escuro, como se a fé fosse um salto cheio de esperança nas trevas, uma aposta contra a gravidade do abismo. Não: a grande marca de Deus é a inteligibilidade. Deus se dá a conhecer a quem quer que tenha sinceridade e humildade para tanto, e eu digo conhecer, ter a certeza de que ele existe e é quem está por trás de tudo. Imagine só: Deus inventou o mundo e tal, e te deu cabeça para pensar pra quê? Ele seria um Deus muito sádico se nos obrigasse a apostar na sua existência e não se desse a conhecer a todo momento.

A realidade inteira aponta para Deus. O Criador deixou a sua marca em tudo o que existe. É claro que em certos momentos o Sentido nos parece mais presente do que em outros, que nem sempre se consegue manter essa tensão contemplativa máxima, mas os poucos momentos em que nos vemos frente à frente com a Beleza e a Verdade da criação divina são suficientes para resgatar todo o mal-estar da existência. Um único momento vale uma vida, e infelizmente há muitas vidas que não tiveram um só destes momentos.

Quem já viveu isto sabe bem do que falo. Não se troca a visão da rosa em meio ao caos pela arrumação arbitrária do caos. Mas, para quem nunca lançou um olhar sincero para o mundo, para quem nunca viu que Deus está no nascer do sol, nos olhos da amada, no suco de amora e nas pedras e tudo o mais, não me admira que só reste a reforma da sociedade. O que, no fundo se reduz a dizer que o reformador é bom e os reformados são maus: uma infantilidade muito da besta.

Não acredito que se possa ter um verdadeiro amor pelas criaturas sem antes amar o Criador. Quem não ama o Criador não é capaz de amar o que há de eterno em uma pessoa, mas somente seus aspectos mais acidentais e transitórios, o que, por sua vez, não configura amor nenhum, mas somente uma paixão, no sentido de pathos. E, não a amando, sendo incapaz de contemplá-la como deve (pois a contemplação está voltada para um objeto muito menor do que ela própria), deseja alterá-la, fazendo-a conformar com um ideal abstrato, que, por definição, é uma bela porcaria e infinitamente pior do que aquilo que Deus mesmo planejou. Por isto mesmo acredito que todo desejo moderno de reforma da sociedade é mal-intencionado.

A compaixão de que Jesus nos fala é justamente a capacidade de perceber o aspecto trágico da queda, o drama do eterno em meio ao transitório. Ao mesmo tempo, é somente amando este mundo na sua totalidade, com todos os seus aspectos transitórios, que se pode perceber a unidade da realidade e a presença de Deus, que, como um maestro, rege esta imensa sinfonia que é o mundo da vida.



Do site O Indivíduo.
 
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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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