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Urântia e Krishnamurti PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
14 de março de 2003

Claro, meus amigos irão torcer mais uma vez seus lindos narizes ao que irei dizer agora, mas para mim está bastante claro: a atuação de Jiddu Krishnamurti no século XX e o aparecimento do Livro de Urântia no mesmo período têm tudo a ver, são complementares! ("Lá vem o Yuri com aqueles papos mirabolantes...") Sim, pois o livro mais incrível que já li em toda a minha vida - O Livro de Urântia - e o excelente Instrutor do Mundo - como queriam Annie Besant e o pirado do Leadbeater - são em conjunto tão paradoxais, se legítimos, que só podemos compreender realmente um se compreendermos também o outro. (Quem não é dogmático mas Vivo, não agiria de outra forma.)

Krishnamurti, para quem nunca ouviu falar - era o cara mais escorregadio, mais teflon da face da Terra: ninguém conseguia encaixá-lo em rótulo algum. Sempre houve quem quisesse tratá-lo como "guru", "pensador", "filósofo", "farsante" e coisas do gênero, mas ele lograva esquivar-se ao que fosse. Repetia sem parar: o homem não nasceu para seguir ninguém, nasceu para a Liberdade e esta deve vir no começo, não no fim de uma busca, não no fim de um esforço ou da adaptação a um padrão ou sistema. Para ele, "pensar no problema é fugir do problema", uma vez que toda solução só vem à tona no intervalo entre dois pensamentos, quando a mente está em silêncio. A verdade sobre o que quer que seja, dizia, não pertence ao temporal mas à eternidade, e esta não pode brilhar se ofuscada pelo pensamento, que é a forma psicológica do tempo. Para ele, a única solução para todos os nossos conflitos é a atenção permanente, a observação passiva e sem julgamento de todas as nossas relações (interpessoais e com a totalidade do mundo), a qual nos faria, assim, descobrir a verdade relativa a nossos condicionamentos, fugas, apegos, medos e demais ilusões. É, então, pelo reconhecimento do falso como falso que a verdade se nos mostra, já que é ela quem nos deve encontrar. Pois a vida é um desafio de momento a momento, e a mente precisa estar atenta para reagir de acordo com cada um desses momentos. A verdade nos espera no atemporal.

Neste ponto algum filósofo lhe diria: "Sois um cético metódico, isto é, buscais a Verdade pelo afastamento do que é falso. Este método, por si só, é incapaz de atingir aquilo a que se propõe." E Krishnamurti certamente lhe responderia: Por que tentais enquadrar o que digo em seus conhecimentos? Não estais a ouvir-me? O conhecido é memória e o pensamento é reação da memória, que é tempo, e, se vós tentardes ver o mundo com tal filtro, jamais percebereis a verdade sobre o viver, a qual é sempre Nova, Real, Inesperada. A verdade é o que É, não o que projetais, não o que desejais que ela seja. Numa mente assim ofuscada, todo conhecimento não passa de fuga da Realidade. Vós achais que sois um pensador a criar pensamentos, não é assim? Mas, se realmente estivésseis atentos, perceberíeis que é o pensamento quem cria o pensador e não o contrário. O pensamento está sempre em movimento, tal como a água de um rio no correr dos segundos e, por isso, necessita criar algo heterogêneo, algo que lhe dê a falsa sensação de permanência: daí o "pensador" e o fim da unidade da consciência. O pensamento pode ser um meio muito útil para construir as coisas materiais, para desenvolver técnicas, para administrar negócios, mas não serve para a compreensão do que a Vida realmente é. Porque se uma máquina é um meio de se atingir um fim, as relações humanas, por sua vez, não são uma coisa à qual devemos aplicar ou identificar um meio qualquer, seja ele político, econômico ou filosófico, para se atingir um pretenso fim. Nas relações humanas meio e fim são uma só coisa, uma unidade: se utilizarmos a guerra para chegar à paz, não teremos paz, apenas guerra. Nas relações humanas - ou "mediações humanas" - o meio (do lat. mediu, digo eu) é não apenas a própria relação mas seu único fim. O pensamento, pois, sempre procura criar mil e um meios de atingir um fim - a felicidade, a paz, o amor, Deus - mas, em relação à Vida, o meio é o único fim e, por isso, a liberdade deve vir no princípio, caso contrário, estareis preso à ilusão desde o primeiro passo.

Este, meus caros, é Krishnamurti: o homem que não cita nenhum livro, nenhum texto, nenhum mestre, nenhuma "verdade", nem Deus sequer. Aliás, se alguém lhe perguntasse sobre Deus, diria ele: "Quereis saber a verdade sobre Deus? Então deveis descobrir primeiro a verdade sobre vós mesmos ou, do contrário, como sabereis se o que encontrais não é apenas vossa própria projeção? Afinal, só podeis buscar o que é conhecido, não é verdade? Deus é o desconhecido e, se o buscais, como O re-conhecereis ao encontrá-Lo?"

Agora, se Krishnamurti é o cara que torce a toalha das nossas mentes encharcadas de ilusões, idéias e teorias, o Livro de Urântia é aquele que veio esticar nossa imaginação até o limite do suportável. E isto também pode significar: criar a maior e mais extraordinária de todas as fugas da realidade! Sim, porque afirmo e afirmarei sempre: quem tiver a paciência e a boa vontade de ler as tais duas mil e cem páginas por inteiro - sem preconceitos - não escapará imune, alguma modificação sofrerá. Mas aquele que se apegar a alguma idéia isolada do livro, sem levar em consideração o todo, poderá pirar. Eu, por exemplo, quase sucumbi à alucinação que é semelhante leitura. Sinceramente, Tolkien é fichinha...


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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