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"Julianôôô, vai ver o filme?"
(pausa)
"ô, Juuuuu"
"deixa ele, deve tá tomando banho"
"de novo? ele não ia sair?"
"ia, mas cê conhece o Sérgio, né"
(Juliano senta-se na cama, atordoado) nossa! que horas são? preciso me levantar, já deve ser quase hora do almoço. nossa, tô tão ligado. depois escovo o dente. uma preguiça... (levanta-se) engraçado será que é madrugada? tá escuro... (tenta abrir a porta mas a mão passa através da maçaneta) meu Deus!! 8-0 que qui tá rolando???? (insiste sem sucesso) o que é iss- epa! (senta-se no chão do boxe, o chuveiro ligado, já não há som do CD) ai, meu maxilar tá trincando... meus ossos... tem um torno apertando minha cabeça. água! água!... ¿mas como se eu tava agora mesmo tentando sair do quarto? (fecha o chuveiro) meu Deus, isso é muito perigoso, não posso mais tomar isso. me lembra aquela história babaca que minha mãe ouviu o Gil Gomes contar no rádio nos anos setenta: o filho cheirou, o pai chegou, ele pensou que o pai era um monstro e o matou a facadas. puts! melhor nem pensar... já tô tendo até alucinação, meu pai do céu, isso nunca tinha acontecido antes. tenho certeza que eu tava agorinha no quarto, deitado de short e camiseta. e eu achei que tinha acabado de acordar! ..... não sinto as pernas direito. que medo. esse barulho lá fora. que será? nossa, tudo tridimensional! ... 8-( ... claro, né, ô palhaço, mas é como se eu estivesse vendo isso pela primeira vez. esse corpo não parece meu. (olha as mãos) mil mosaicos... veias estrias estradas do meu corpo do meu porco mercúrio líquido... não consigo respirar, não consigo não consigo vou desmaiar vou desmaiar .........(deita-se rapidamente, põe as pernas sobre o vaso sanitário) :-( não devia não devia ter tomado, preciso de alguém, tô muito sozinho, muito muito muito só, eu, o último dos merdas... (encolhe-se novamente) droga... droga... (chora) cadê a Aline? eu precisava tanto dela agora... desgraçada... sozinha lá na praia, me esperando em Trancoso... até me mandou uma passagem, imagina... sinto uma falta tão grande... de alguém... de algo... uma falta de mão no saco! (segura o saco. dá gargalhadas) a Aline segurando meu saco seria tão reconfortante! (abafa as gargalhadas com as mãos) tenho que parar tenho que parar, acho que não vou voltar, não vou, vão me ouvir e saber que finalmente perdi o controle... 8-| ... fui muito longe, exagerei, queimei meu cérebro, enlouqueci, chorando abracei o cavalo... o cavalo da minha alma, essa filha duma égua... (apavorado) minha mão passou através da porta! eu me lembro! me lembro! os pais do Tiago levaram ele pro hospital psiquiátrico uma vez. isso não pode acontecer comigo, não pode. eu posso não conseguir mais sair de lá, não encarar mais ninguém. tô tremendo tanto! meus dentes tão batendo. vão acabar ouvindo meus dentes batendo. tão alto. será que vão ouvir? ¿que som é esse? parecem bombas, tiros. será a revolução?? sou amigo dos manos, não pode rolar nada. fala com eles Mano Brown, fala, não sou como os outros... devo ser pior, um inútil, imagina: um es-cri-tor... até parece... já foi tudo escrito, tudo... nada mais a dizer... nada a acrescentar. nada a declarar! sem comentários! fale com o meu advogado! (gargalhadas, lágrimas) vida sem sentido sem sentido sem sentido, mundo besta... são todos tão bestas que me dá medo. (arregala os olhos, assustado) esse barulho! sim, já sabem que pirei, já sabem. tudo tão igual e tão diferente. puts! tão tentando entrar! (levanta-se e corre pro quarto, ainda molhado) tenho que me esconder. (entra no armário) vou ficar aqui até eles desistirem, até eu parar de tremer... (fecha a porta por dentro) medo medo medo. pra ser escritor "carece de ter a muita coragem"... "viver é muito perigoso"... meu tio me chamava de "tatarana"... eu tinha uma penugem nas costas... (soluça) cadê a coragem? cadê?? medo é frio na alma, só pode ser. tanto frio num dia tão quente, que vergonha. não posso ir pro sanatório não posso, eu... eu ...... >-( ...... ai, cacête! uma falta de ar escrota. tô com medo de morrer!! um medo enorme!!! isso tá errado, ¿que droga é essa? isso não é MD, tenho certeza. sensação difícil de suportar, esmagadora... um branco, tudo branco, uma página em branco gigante caindo na minha cabeça... estou soterrado de vazio, de nada, de branco. escritor, eu... escritor foi Shakespeare, isso sim. ele foi tão magnífico que conhecendo todos ninguém hoje sabe ao certo quem ele foi. depois foram tantos: Cervantes Swift Milton Blake Goethe... Tolstoi Dostoievsky Nietzsche... Poe Hesse Papini Joyce Tchecov, tantos, tantos: Gide Clarice Rosa Rimbaud Machado Borges Abbelio... Hilst Pessoa Baudelaire Beckett Faulkner Jünger Anaïs Bulgakov Pynchon Lory Huxley Raduan... tantos tantos... e nem li todos, que vergonha, fico me exibindo pra mim mesmo. há outros. não consigo me lembrar... (bate repetidamente a cabeça no armário) e eu, em pleno ano dois mil? quem sou eu? por que nasci tão tarde? por que demônio das profundas? por que Rei do Mundo?... 8-< ... o frio again... Shakespeare conhecia todos. o Henry Miller só falava de si mesmo. como se fossem dois pontos de inflexão na literatura ocidental: um no ápice, outro na decadência. um rebuscado, outro vomitado. um de fora, outro de dentro do ego. do começo ninguém tem uma conclusão. e eu...... eu...... eu mais sem qualidades do que sonhaste, caro Musil, eu jamais grande escritor, eu incapaz de montar a propaganda, esse cavalo do século... eu barata kafkiana de armário, não bharata sânscrita, que se traduz poeta, eu aquela outra, vencida pela naftalina acachapante deste mundo informatizado... eu sem dono de Tabacaria que me salve da loucura, eu que sequer fumo... eu esqueleto desse armário, meu próprio anão nele escondido, Dunga com medo da alta folha branca de neve, oculto anão das letras... dizer "eu" é tão ridículo, tão sem sentido... qual o meu significado? qual?? eu eu eu eu eu eu eu... viu? não disse nada. o torno de novo! tá me apertando! tô tremendo demais! minha cabeça, acho que vou pedir socorro... que vergonha. mas é esmagador! não consigo evitar, não consigo, minha mediocridade, minha inutilidade me mata, existir me sufoca. esse cheiro de velório, de onde virá? a primavera chegou? a prima Vera vem aí? (risos nervosos) tão gostosa, aquele cheiro de bu... meu Deus, não consigo respirar... >-o ... (sai rapidamente do armário. desaba)
"não disse que seu pai não ia agüentar? aí, já tá dormindo"
(Tati e Ana dão risada. Luís finge que não ouviu)
nossa, eu também dei uma cochilada. que filme é esse mesmo? ah, taí o surfista pirado, é Apocalipse Now. puta filme esse. esse cara toma um ácido em plena guerra do Vietnã! imagina só a viagem. ele pira tanto que fica parecendo o único são. claro, em termos de desenho animado. vai e não volta. e o Marlon Brando! demiurgo da selva, o mal encarnado... e ainda tem aquele general louco impagável, surfista também, imune a bombas e tiros... ou pelo menos é tão megalômano e poderoso que não vê nada a não ser ondas e alvos. qual é mesmo o nome do ator? ele atuou e dirigiu aquele filme pentelho em que fica dizendo "aleluia" e "Jesus" o tempo todo... isso, O Apóstolo. mas qual é mesmo o nome dele?
"mãe, qual é mesmo o nome daquele ator que falava 'djísus' o tempo todo?"
(ninguém responde. Juliano ri)
"ôôu! ¿alguém? ¿alguém? ¿alguém?"
(nada. Juliano estica o braço, tenta tocar o ombro da mãe. a mão a atravessa)
não acredito não acredito. qu'é isso??.... :-0 .... ai, meu Deus do céu, tô me lembrando: eu tava agorinha escondido no armário e........ eu morri!!! tô morto, só pode ser. que nem aquele filme, Uma Simples Formalidade! que nem o Sexto-sentido! João filho da puta: aquilo era veneno! o cara me matou!! o que é que eu fiz pra ele?? meu quarto, eu tenho que- não, não, tenho medo de ver meu corpo
"você não morreu não, bestão"
"quieto, Gabriel!"
eu ouvi! eu ouvi! falaram comigo. (pula em cima da mãe, apavorado) mãe, pelo amor de Deus, me ouve: vai no meu quarto, eu não fui dormir não, eu tô passando mal, me ajuda mãe (tenta abraçá-la sem sucesso. é como se tocasse um holograma) ¿será que vocês tão brincando comigo?? o que é que tá rolando? socorro, caramba!!... (chora) eu não posso morrer agora, simplesmente não posso... (ajoelha-se diante da mãe) mãe, pelo amor de Deus, cara, entra agora nesse quarto, tá rolando alguma coisa que eu não entendo, acho que tô maluco, a morte não pode ser assim, não pode... (sons de tiro: Juliano levanta-se apreensivo) de onde veio esse barulho? foi o filme? parece que é lá fora... será? (vai até a janela) ... 8-O ... começou!!! meu... meu Deus!! a bandidagem tá caindo de pau no bairro, é o caos. nossa, tão pulando aqui dentro, tão na garagem, muita muita gente... apocalipse now!! no ano dois mil! em pleno ano dois mil! deve ser no mundo inteiro! pogrom! defenestração! vão matar todo mundo, todo mundo. eu ouvi, eu ouvi isso num filme, no Antes da Chuva, "não existe um povo pacífico", não existe, pra tudo um limite... a gente tem que fugir! a gente tem que fugir! a gente não tem culpa... (vira-se pra família) uê!! cadê todo mundo? mãe?? Ana??? (a sala está vazia. na TV, a escada de um templo abandonado cheio de cabeças. Juliano corre pelos quartos, desce a escada) pai!! cadê vocês, merda?! e esse monte de sangue no chão??? o que qui tá acontecendo? tá tudo ensangüentado!! o teto. o chão. eles não podem ter matado vocês, não podem. (desesperado, os olhos marejados) feliz ano novo, Ruben Fonseca! feliz ano 2000, Juliano! bem-vindo à morte como ela é... (vários vultos passam correndo diante da janela da sala) foram eles! foram eles! (cai de joelhos, esconde-se atrás do sofá) não agüento mais isso! e se eles estiverem atrás de mim? que medo, não agüento, alguém me diz o que tá rolando...
(garoto engrossando a voz) "pezinho pra frente, pezinho pra trás"
"silêncio, Gabriel!"
não me leva! por favor, não me leva!
"Julianôô ! telefone pra você, ¿cê tá dormindo?"
(abre os olhos, assustado) nossa, será que eu desmaiei? (levanta-se em seu quarto, diante da porta aberta do armário)
"Juliano?"
"fala!"
"telefone pra você, é o Fran"
"já vou, Carlinha, já vou"
minha mãe do céu, meu corpo tá formigando inteiro... que tremedeira do inferno... (põe a roupa e de repente estaca) caramba, eu entendi! agora eu entendi! aconteceu o futuro! eu me lembro!! foi uma visão!!! ... 8-) ... mas que escritor coisíssima nenhuma, eu sou o gatilho! ... 8-] ... é tão óbvio, minha vida inteira pra chegar a isso: eu começarei o fim do mundo! The End, que sincronicidade! é claro: eu sou o universo, entrou tudo em mim, tudo tudo, eu saquei, tudo o que vejo é projeção da minha mente, eu crio tudo. olha, ainda tão todos lá assistindo ao filme, todos... o que vi foi o futuro! li tanto tanto pra só agora perceber que não era necessário: tudo vem de mim! eu sou a Matriz, eu sou o Deus Supremo!!! por isso todas as mensagens que fui encontrando em minha vida, nos livros, nos filmes... tudo agora faz sentido! e eu querendo ser um simples, um estúpido escritor... eu que não era tomado por nenhum grande tema como queria o Ernesto Sábato... eu, a própria fonte de tudo... >-) como eu não percebi isto antes? tão na cara...
"ô, Ju! não vou mais chamar, hem, a gente tá indo dormir"
por isso o meu amor e a minha vontade de destruir o mundo. eu só desejo começar tudo de novo, como a fênix. sempre foi assim: eu inicio, o homem se atrapalha com o Tempo e cai no eterno retorno. ele não percebe que só merece a vida quem ascender a espiral do Tempo. o eterno retorno é erro, é pensar que eternidade é duração linear, e não atemporalidade, ausência de Tempo, permanência. o espaço - que é tempo atualizado - se curva sobre si mesmo: oroboro, eterno retorno. o avião cruza os céus porque tá tão apoiado no ar que é como se este fosse sólido, como se fosse outra coisa. assim deve ser seguido o Tempo, tão agora, tão nele, como se fosse outra coisa, como se fosse sua ausência. o Wittgenstein, o Witt, ele disse: viver eternamente é viver no presente. civilizações nascem e morrem porque não percebem isso. os humanos tão sempre partindo da estaca zero, sempre achando que são os mais isto, os mais aquilo, que estão no auge da sua evolução e, idiotas, vivem repetindo as mesmas coisas, os mesmos erros. querendo dominar... a Atlântida é agora! a eternidade é hoje ou nunca! corrupção e escravatura, Emil Ludwig?? não!!! eu sou o destruidor...
"vou dizer que você tá cagando!"
opa!
"já vou, já vou"
(abre a porta. o filme acaba de ser rebobinado. atende ao telefone)
"Ju? o Sérgio ainda não apareceu?"
"quem tá falando?"
"é o Fran, cara"
"ainda não, mas não tem problema, Fran, vou dar um jeito..."
"você vai pegar o carro?"
"não, desisti de ir, descobri umas coisas..."
"algum dji-djei não vai tocar?"
"tchau, Fran, até um dia"
"puts, cara, ¿até um dia? parece até que cê tá doidão..."
"não, meu filho, nunca estive tão lúcido em toda a minha vida"
"iiih... ¿meu filho??" (risadas) "tá viajando..."
(Juliano desliga)
não posso contar a ninguém quem eu realmente sou. são todos tão ignorantes que ririam da minha cara. eu te perdôo, mundo. mas infelizmente terei que encerrar mais esta tentativa. as coisas fugiram ao controle. não dá mais. vou dar o grande aviso. nesta manhã, quando olharem pro céu, todos lerão em letras holográfico-garrafais: GAME OVER!!! (gargalhadas)
"ih, Ju, qual foi a piada que o Fran te contou dessa vez?"
"NÃO INTERESSA"
"credo, meu, que grosso. vai rir no teu quarto senão cê vai acordar a casa toda" (Carlinha fecha-se em seu quarto)
e eu que não sabia se a Aline era ou não a mulher da minha vida... que besteira! como se eu já não me bastasse. é incrível! como tudo é tão claro agora. tudo tão belo e cheio de detalhes. as paredes, cheias de caras, de rostos, me olhando, admirando seu Criador. veja, Juliano: quantas mãos saem da parede para lhe tocar, para tocar o seu Senhor. amo vocês, toda a matéria, toda a energia, todo o espírito. e é por amor que darei um basta a tudo, a todo erro, a toda estupidez. tão claro... se o universo vem de mim, se minha essência é eterna, eu, o Brahma, só tenho que liquidar com minha própria manifestação física, tenho que me sacrificar, é lógico. assim, todo o processo se iniciará, tudo o que vi se atualizará, será real. será muito sofrimento para todos, mas isto os purificará de tanta ignorância e maldade. 8-] minha morte será um buraco negro do qual ninguém escapará, eu, Hercólobus, purgarei o mundo de toda iniqüidade...
"tio Fad, por que ele tá com essa cara engraçada?"
"pssiu!"
eu sinto os anjos ao meu redor. logo eu que nunca acreditei neles os ouço agora. vieram prestar suas homenagens, eu sei. meus queridos, abençoem o planeta em meu nome, transmita a todos o meu amor, o meu perdão... eu, Shiva, conduzirei a humanidade à extinção, à absorção total em Brahma, ao Brahma-nirvâna...
"ih, o cara tá assim porque tá pensando em cerveja e no Kurt Kobain??"
"Gabriel!"
como fazer, anjo Gabriel? como agir? me jogar de cabeça janela abaixo? me enforcar?
Tio Fad: "caminho do meio, Shiva..."
sim, claro, não há estética numa cabeça arrebentada. muito menos num corpo roxo, numa língua dependurada. isso tudo seria um extremismo... o que fazer então?... 8-|... mas tá na cara! é isto! Kurt Kobain: o revólver do meu pai. um tiro no coração e fim. depois basta limpar o sangue e ficarei bonitinho no caixão... tão simples... à arma! à arma! tenho de encontrá-la... ( abre a porta do quarto dos pais e começa a remexer nas gavetas)
"qué isso? quem taí??"
"sou eu, mãe"
"meu filho, você já viu que horas são? o que é que cê tá procurando a essa hora?"
"procurando? tô procurando nada não..."
"se quiser dinheiro por que não pede? se teu pai acorda e te vê fuçando nas coisas dele vai ficar zangado..."
"eu queria minha passagem de avião... pra reservar o vôo..."
"uê! decidiu ir hoje? assim de repente?"
"é..."
"então olha lá embaixo, na sala de TV. acho que tá num envelope azul..."
"tá"
(e sai, o coldre de um 32 na mão esquerda)
caramba, o coldre tá vazio. onde será que meu pai guardou o revólver?... será que ele aderiu a esse tal programa de desarmamento? não, não. ele mesmo me disse: "isso é uma grande besteira, a violência tá é dentro de cada um e não de fora, numa arma. se a sociedade fosse desarmada, logo logo leríamos notícias de gente morta à paulada, pedrada, porrada, cacetada e o diabo. isso tudo é uma invenção do totalitarismo mundial que vem por aí... além disso, só um idiota pensa que os bandidos não teriam onde conseguir armas. uma revolução então, nem se fala..." mas onde diabos se meteu então a porra do revólver?? ... :-{ ... puts! é claro, elementar, meu caro Shiva... (sorri) só pode tá no quarto da minha avó! ¿ela não ficou preocupadíssima quando meu pai faliu e o sócio se mandou pros esteites? claro, ela o escondeu com medo de que o filho fizesse uma besteira consigo ou com o sócio fujão! eu ouvi algum blablablá desse tipo entre ela e minha mãe... (abre a porta do quarto da avó, entra a passos de ninja) ela não vai acordar, dorme que nem coma profundo... (revista as gavetas da cômoda, o armário) caramba, onde tá essa merda?... (encontra e desembrulha uma calçola enorme) achei! achei! eu sabia, eu sei tudo, tudo!!
"Jacinto, mostra ele pra mim de novo?"
ai ai ai, sonho erótico de viúva véia. preciso sair fora... (coloca o revólver na cintura, sai de fininho) onde, onde me executo? :-| ... tudo é imagem, ilusão e símbolo: tem que ser num lugar inútil, tão ridículo quanto nossa civilização, tão dispendioso e monumental quanto a obra dum corrupto... a piscina! óbvio. (cobre a boca para não rir alto) meu pai levou anos planejando a tal da piscina e, quando finalmente começou a construí-la, faliu. nem sequer terminou de colocar os azulejos. sem falar que a fundação da coisa era tão mal feita que rachou. tipo obra do MALuf! agora taí, só enche d'água quando chove. plantação de dengosos... vou deitar lá dentro e — pum! — piscina de sangue! 8-] ... mensagens, mensagens, devo deixar algumas mensagens, devo isto a meus pais carnais que sempre foram tão bacanas comigo... (entra novamente em seu quarto e, muito eufórico, escreve em folhas soltas) "CORAGEM! HORDAS VIRÃO! — TENHAM FÉ, TUDO É NECESSÁRIO! — CHEGOU O GRANDE DIA DA PURIFICAÇÃO, O GRANDE DIA DA DANÇA DE SHIVA! — GAME OVER, GALERA!! — TODOS VÃO DANÇAR! — FIQUEM NA SINGULARIDADE! NÃO SE ENTREGUEM AO FRIO DA ALMA! — PARTO POR AMOR E NÃO POR DESESPERO — ORAI! O TEMPO DE VIGIAR CHEGOU AO FIM — GRAVEM O PRÓXIMO EPISÓDIO DO FRIENDS..." epa, que coisa mais besta, vou rasgar esta última... (rasga) isso não é hora pra piada... bom, agora só falta uma coisa... (vai à sala, pega uma Bíblia, o Gïta e o Corão. junta ainda alguns livros — "Obras completas de Shakespeare/vol.II", "Pesadelo refrigerado", "Assim falava Zarathustra" — e, no banheiro anexo ao seu quarto, atira-os à privada. sobre o tampo fechado, à guisa de selo, coloca os três livros sagrados. ao redor, pelo chão, espalha as mensagens) pronto. aqueles que tiverem cabeça pra entender que entendam. pra piscina... B-] ... incrível incrível. finalmente selarei meu destino. e o da humanidade, claro. tão óbvio... tudo na casa me observa, tudo. despedidas... (desce as escadas que dão para o quintal) mas eu reabsorverei todas os entes, todos os seres... e o revólver frio, aqui, na minha barriga. meu pai vai se culpar por isso talvez. coitado, é um presente: caminho do meio... pronto: eis o altar sacrificial... (pula dentro da piscina) vou me deitar aqui, na parte funda. este é um ato profundo... nossa, quantas estrelas, e no céu de São Paulo!! 8-) fantástico. vieram ver seu senhor, claro... e aquela é Antares, alfa de escorpião, bem no zênite. (retira o revólver da cintura, aponta-o para o coração e, com lágrimas nos olhos, sorri) e aqui na Terra, eu, Shiva, encarnado sob o antigo signo da Águia, me consumirei como a fênix: eis o ferrão!
"PÁÁÁ!!!..."
(...!!!.................)
"você não tem jeito, hem, Gabriel?"
"desculpa, tio..."
"bom, vou segui-lo. você me espera aqui junto ao corpo"
“mas, tio, ele não sa...”
"não saia daqui! tchau"
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