Pesquisar
  Início arrow Todos os textos arrow Genus irritabile vatum

Genus irritabile vatum PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
Índice de Artigos
Genus irritabile vatum
Página 2

"olha só, tio, esse aí não é o..."

"quieto, Gabriel, apenas observe"

puta merda, acho que tá todo mundo me sacaneando. os caras não aparecem, a bosta do MD não bate. "toma antes de sair, assim você chega na festa quando a onda bater", disse a besta do João. aposto que é falsa essa droga. maizena. pura anfeta. também era só o que me faltava, perder logo a rave de hoje. não agüento mais só ficar lendo, sem conseguir escrever, sem arranjar mais um frila sequer, nessa miséria, pulando ora desse ora daquele apê pra casa dos meus pais – ou pior, pra casa da Aline –, sem um puto. foda. muito foda.

"cê não ia sair, filho?"

"vou, vou, tô esperando o Sérgio"

meu pai. olha só o coitado: sentadão aí na sala, cochilando na frente desse seriado americano pasteurizado. Deus me livre trabalhar trinta anos, me aposentar e ficar nessa, tipo Beaves e Butthead idoso. é tudo uma grande merda mesmo, um cocozão cósmico. os cátaros devem ter razão, este mundo foi criado pelo demo. "deus não se revela no mundo", escreveu o louco do wittgenstein. e olha só, o filme é tão ruim que o cara, o meu pai, que é um puta pai, taí, quase babando. sacanagem. o cara trabalhou pra caralho, ajudou mil neguinhos e olha só como a sociedade o recompensa: mil propagandas de TV. sem falar que ele investiu uma puta grana em mim e eu necas, um bostão inútil. escritor escritor. escritor o caralho! que livro que eu escrevi? aquela besteira cheia de poeminhas adolescentes? aqueles contos que nem consigo publicar? vômito de bêbado

"que qui cê tá fazendo aí parado, olhando pra mim?"

"eu?!"

"não, a minha sombra"

"eu vou lá beber água, pai. quer?"

"não, brigado"

caramba, já tô dando bandeira. só faltava mesmo o negócio bater aqui em casa. se rolar, fudeu, vai ser pior do que tudo. será que meu pai sacou? nossa!, imagina, nem pensar. tá todo mundo aqui: vó, cachorro, papagaio... :-( puta roubada, meu! deve ser só adrena. sempre dá um nervoso tomar um troço desses. igual pular de pára-quedas, o famigerado salto no abismo e tal... bom, de qualquer jeito os caras precisam passar por aqui. a represa Billings é aqui ao lado, nessa mesma bosta de zona sul... e o viado do João ainda teve a manha de me falar que essa coisa levava mais de uma hora pra bater! alta sacanagem... nossa, que que eu vim fazer aqui mesmo?

"Ju, me passa esse vidro de azeitonas aí do teu lado"

a água, é isso, vim beber um pouco d'água. nunca me lembro de beber. a água da vida. deve ser por isso que mijo amarelo pra caramba, uma coisa forte, como se eu comesse enxofre. o demo não deve beber água. a da vida, claro. as coisas que eu me lembro... uma vez eu dei aquele remédio pra uretrite, como chama? é, isso, o Sepurim... dei pro Jáder dizendo que era pra dor de cabeça, só pra ele mijar verde e o cara-

"Ju? tá de mal de mim, é?"

"o quê??"

"tá preocupado com alguma coisa? tá com uma cara..."

"é o Sérgio que não aparece logo, Carlinha"

"você tá cansado de saber que o Sérgio é embaçado. agora vai, me passa a azeitona"

"cadê a mamãe?"

"foi tomar banho... tá lembrado que o Luís vem assistir um filme aqui hoje, né?"

"qual filme?"

"Apocalipse Now"

meu Deus, não posso esquecer: ficar bem longe da televisão! o Sérgio tem que chegar, já tô com o maxilar estalando, a boca seca. que horas são? (relógio de plástico na parede com propaganda de empresa) meia noite e meia??! e ainda tá todo mundo ligadão por aqui?! será que esse relógio não tá adiantado? por que o Luís não se limita a consertar o computador do meu pai? precisa ficar trazendo filme todo sábado à noite? por que não traz domingo à tarde? o velho já tá até dormindo no sofá... nossa, que angústia tá me dando. uma aflição! parece até que tô numa trincheira, esperando um tiro... sempre que tomo essas porcarias me arrependo em seguida. sempre a tal "morte iminente", essa sensação escrota. deve ser falta de memória. se eu realmente assimilasse a experiência, lembraria que o lance é muito, muito, muito foda. olha só, olha os dentes trincando

"nossa, Ju, cê já deve ter tomado dois litros de água"

"eu?"

"é, olha só, quase secou o filtro. tava no deserto por acaso?"

é, vou pro meu quarto. lá sim é deserto, não vou dar bandeira nem pagar nenhum mico. puta que o pariu! meus pés nem tocam mais o chão, tô flutuando. que cheiro forte será esse? cheiro de flor de velório. credo. a porra tá batendo mesmo. por que sou tão azarado assim? que saco, Deus do céu, ¿não foi com a minha cara não, é? minha tia disse que eu nasci feio pra burro, que nem acreditou que eu era filho dos meus pais. eu parecia um sapo roxo, inchado, com as narinas feito dois funis. horrível mesmo eu devia ser, um bebê de Rosemary misturado com Macunaíma. opa!

"iiih, nem saiu pra festa e já tá bêbado?" (o pai no sofá da sala)

"hã? não, eu tropecei no degrau, só isso"

pro quarto, pro quarto. (sobe a escada, cuidadosamente, apoiado no corrimão) eu já tinha prometido pra mim mesmo que nunca mais ia fazer isso. daquela vez tomei uma mescalina que levou mais de duas horas pra bater. pelo menos era de manhã, fiquei enrolando no jardim um tempão. mas foram treze horas de piração!!! que pareceram dois milênios... foi muito céu e inferno pra uma cabeça só. MD não pode ser assim. Deus me livre. chega logo, Sérgio, seu filho da puta!... e aquela vez naquele club, o Alien? tomamos um doce que só bateu quando a gente tava saindo de manhã. eu e o Sérgio num passeio matutino. cada um com mais cara de vampiro que o outro. os prédios da Brigadeiro se inclinavam pra cima da gente, parecia que a cidade ia nos engolir. e o cara: "nossa! vamos entrar nessa feira, olha só como tá tudo bonito, luminoso..." que saco, tive que arrastar o cara dali debaixo do viaduto da Treze de Maio, onde rola a feira. ele ficava perguntando pra japonesa: "esse pimentão é de verdade?" que puta bandeira aquilo. A japonesa cheia de mesuras, um sorriso diplomático, enquanto procurava uma autoridade com o canto dos olhos. depois a padaria: "meu! olha só a luz nesse pão de queijo..." e os velhinhos madrugadeiros encarando a gente, desconfiados. fotógrafo é foda. devia ser a mesma coisa andar com o Van Gogh. por isso ele ficou sozinho. só babando na beleza das coisas, dos corvos, dos cocôs de cachorro, dos carrapatos brilhando ao sol. depois, ao sair da padaria, a gente não pôde ir pra casa. tanto na minha como na dele teria sido terrível. vó e papagaio. fingir que não está louco é interiormente equivalente a não berrar durante uma cirurgia dentária sem anestesia. e a gente ainda nem dividia apartamento. deve ter sido em 96 ou 97... só sei que acabamos no cemitério do Morumbi, procurando o Ayrton Senna. aquele gramadão... dois enterros... um velório... o cheiro das flores não incomodava como agora. foi gostoso pra caralho. hiper tranqüilo. rimos. conversamos sobre a infância, os carrinhos de rolemã. lemos os nomes nas placas de bronze. ele até me contou por que me chama de "irmão alemão": uma clarividente lhe disse que uma pessoa muito próxima dele fora, noutra encarnação, seu melhor amigo na Alemanha... deliramos deliramos. ninguém sacou nossa viagem. mesmo que tivéssemos chorado, feito escândalo, teria sido normal num cemitério. lá fora São Paulo, numa somatória de máquinas, fazia RÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔ

"qué isso, Ju?! tá louco, é? quer me matar de susto?"

"desculpa, Tati, desculpa"

"pôrra, eu já tava quase terminando a fase, você vem e dá esse berro na minha orelha! aí, tá vendo, perdi..."

"desculpa"

(corre e bate a porta)

agora sim, trancado no quarto. ainda dá pra ouvir a Tati na sala, a musiquinha do Sonic. aposto que vai jogar de novo. a gente tá sempre inventando alguma coisa pra espantar o agora, o irremediável instante. meu pai na sala de baixo assistindo a uma bobagem qualquer de Hollywood, a Tati aí, no vídeo-game, matando o tempo travestido de porco espinho ou seja lá que diabo for esse Sonic. o tempo é realmente porco e espinhoso. quem foi mesmo que disse "matamos o tempo, o tempo nos enterra"? não me lembro, a Tati fic- ah, não, que droga! (põe uma mão na cabeça) a Tati sacou que eu tô louco! fudeu! ela disse "¿tá louco, é?", tenho certeza. e eu ainda bati a porta em seguida! puts, vai contar pra mãe... ai, meu maxilar! meus dentes tão trincando. uma tremedeira. a carne viva da consciência. tudo é pontiagudo, sentir é bambu sob a unha. respirar é farpa no pulmão. que agonia. aliás, que burrice, né, ô Meu? sei sei, tenho que manter a coluna reta, assim, e respirar com o diafragma. que medo, cara, ¿e se alguém procurar saber como é que eu tô? vou tomar banho vou tomar banho, do boxe ninguém me tira. pelo menos aqui é suíte... (tropeça no tapete) saco, tô naquela fase de ter que ficar ligado em tudo senão faço besteira. muito trabalhoso. a roupa. tirar a roupa... nossa!, os azulejos já tão se mexendo, líquidos, gráficos, fluídicos. bateu mesmo. e o Sérgio necas. (entra no boxe) pronto. água quente. tchau, frio do cão. preciso comprar outra estrobo pro meu banheiro. aquela luz piscante deixa a água parada no ar, gotas redondas e não em forma de gotas. ah, vou acender uma vela. na gaveta, na gaveta tem. (volta pro quarto) ... aqui. droga, tô molhando tudo. bostona... (corre pro banheiro) saco, não posso deixar o mal-estar chegar. é só uma agüinha no chão, na gaveta, porra, deixa de ser besta. luz luz. pronto. assim. luz amarela. e penumbra. o som o som. (aperta o play) nossa, The End? quem pegou meu CD do Goldie? aquele, o Timeless? ah, fuck. melhor não grilar com água, com CD, com nada... droga!! não consigo. se tem uma coisa que me irrita é essa coisa de me irritar porque estou irritado. oroboro da ira. orobira, orobirra. nossa, uma pressão no peito. deu até zonzeira... e é tudo tão bonito. os mosaicos sempre aparecem. tapetes persas cobrem tudo. tudo vivo, no ritmo. será que foi mesmo o demo que criou o mundo? os cátaros eram estranhos... e agora democracia versus diabocracia. a religião voltando dum jeito assustador. fundamentalismo. bem que o Spengler avisou que no final de uma cultura vem um resgate da religião original: aqui, cristianismo. tipo último suspiro. zen, taoísmo, budismo, hinduísmo, islamismo: aqui, não passam de moda. pra lá, já são outros quinhentos... depois a revolta dos braços contra as cabeças. a cabeça muito longe pra sentir as dores dos membros, os membros esquecendo a importância da cabeça: revolução. no Brasil tudo chega tarde. quando Judas chegou por aqui nem tinha mais botas... Kali-Yuga no mundo, nessas beiradas de universo. a invasão dos migrantes, dos estrangeiros, as periferias gigantescas, a miséria a fome a violência os manos os sem-pátria os sem-terra os sem-vida... parece que isso tudo já rolou alguma vez. é como se eu estivesse numa cidade do Império Romano, Inca, Mongol, sei lá. meu Deus, como a sensação é real! pro Emil Ludwig quem derrubou o Império Romano foi a corrupção e a escravatura. e o Grande Império Ocidental, quem derrubará? a exclusão e a corrupção véia de guerra? caralho, que sensação esquisita. é como se eu já tivesse assistido a tudo isto várias vezes. nada mudou, replay, mundo vídeo-game... ah, vontade de me encolher, esquecer de tudo de todos, do planeta inteiro. tanta gente no mundo que fico doente só de pensar. (acompanha a música) my only friend, the end... (deita-se) assim, no chão, feito feto. não quero mais pensar nessas coisas, tá doendo. dores no corpo, cansaço. e se meu coração parar?? uma taquicardia! ai, que nóia... por que tomei de novo? eterno retorno do diabo. meu e do mundo. a gente não aprende, não apreende. que vírus mental essa coisa química! preciso parar de pensar, de passar mal... será que vai tudo acabar de novo? será que nós nunca vamos pra frente? talvez seja porque... ai! não agüento essa maldita palavra: porque! junto ou separado. por quê? saco, sinto mil merdas, mil medas... que tremedeira! que mal estar! sinto um... sinto... ah, quer saber?, eu sinto, sim, eu sinto, pai, sinto, mãe, queridas irmãs, caros colegas, senhoras e senhores, sinto finalmente o horror... o horror de SER!! (arregala os olhos)8-* que susto! quase fiquei louco! quase caí do fio da navalha... caralho, isso não pode rolar, posso ser banido. por um instante eu não era eu! que susto!! deitar um pouco, deitar um porco. (gargalhadas) nossa! (tapando a própria boca) tenho que parar, alguém vai ouvir, vai perceber, vai surpreender minha mente vagabunda, minha vagamente, vai pen- ............. (encolhe-se repentinamente) ............ (tosse) ...... vai pensar- ...... (silêncio) ... }-O ... ah, sinto o... sinto tudo. sim, tô tudo: eu tu ele nós vós eles: tudo ... eu crio ... }-0 ... eu, oroboro ...... ele vem e passa todo por dentro de mim, o tempo-espaço ... ride the snake... eu que não resisto à minha própria gravidade... colapso. eu co-lapso. eu funil, cobra que se engole ... sengole... singularidade .... ?????????? 8-O ???????????? 8-# !!!!!!!!!!!!!!!!!!! há vida, há vida !!!!!!!!!!!!!!!!!!! 8-) ...... :-) ..... ah ... vou morr- ... humff ..... >-( ........ !!!!!!!!!!!! ............ (convulsão, escuridão, estrelas)......... |-} |-} ....... (minutos)



(Continua...)



 


Menu principal
Início
Blog
Artigos e crônicas
Contos
Poemas
Cartas
HQs
Todos os textos
Meu curta-metragem
Pesquisar
Livro de visitas
Opiniões alheias
Outros autores
Livros online
Mais lidos
Textos recentes
AdSense
Login





Esqueceu sua senha?
Sem conta? Crie uma
Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
Leia mais...
 
Gostou?

Technorati

Add to Technorati Favorites
Skype Me

Skype me
Syndicate

RSS do Blog
RSS do AudioBlog
Creative Commons

Licença Creative Commons
Total de visitas

† 2000 - 2008 Yuri Vieira dos Santos. Some rights reserved.
Powered by Joomla!.