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Na Kama com Hilda Hilst PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
14 de abril de 2000
Hilda Hist

Hilda Hilst, uma das mais importantes escritoras brasileiras, queria ser popular. Resolveu, aos 60 anos de idade, publicar livros eróticos – ela prefere “obscenos” -, como O Caderno Rosa de Lori Lamby, no qual uma menina de 8 anos narra, completamente à vontade, uma série de aventuras sexuais lambuzadas, que não passam, na verdade, de pura imaginação. O escritor Yuri V. Santos, que morou com a escritora, fala sobre a visão dela em relação ao erotismo. “Conversar sobre sexo com Hilda Hilst é experiência reveladora.” (Artigo publicado originalmente na Revista da MTV)


Quando narrei à senhora H o episódio em que certa ex-namorada, furiosa por eu não querer mais transar com ela, me perseguiu pelo quarto com uma escova de dentes quebrada em ponta na mão direita, tipo Psicose, Hilda exclamou: “Meu Deus, Yuri! Sexo é um terror! Um TERROR!” O comentário pode parecer contraditório dito por ela, que em 9 de maio de 1973, uma quarta-feira, escrevia em seu diário:

"Fiz 2 poemas a Dionísio.
Ele não veio.
Estou muito triste porque acho que não é justo que alguém, no caso Dionísio, não aproveite o que eu estou sentindo agora.

Será que os guias não querem que eu tenha a alegria do corpo? É 1 1/2 da manhã e é pena que o corpo —
que o corpo —
CORPO CORPO CORPO
e ninguém para aproveitar
Hilda Hilst contente de seu corpo."

Talvez a intenção fosse dizer que a garota da escova de dentes é que era um terror. Mas não. Hilda cita sua mãe: “Se tens um inimigo, deseja-lhe uma paixão”. Um trecho da entrevista concedida ao Cadernos de Literatura Brasileira (Instituto Moreira Salles)fala por si:

Cadernos: Boris Vian fez uma conferência chamada "A utilidade de uma literatura erótica", que diz o seguinte: “Ler livros eróticos, difundi-los ou escrevê-los são uma maneira de preparar o mundo de amanhã e de abrir caminho para uma verdadeira revolução”. Esta também é sua visão?

Hilda Hilst: Ele diz "verdadeira revolução"? Não, não acho assim. O erótico não é a “verdadeira revolução”. O erótico, pra mim, é quase uma santidade. A verdadeira revolução é a santidade.

Apesar de sua antipatia pelo rótulo de "escritora erótica", conversar sobre sexo com Hilda Hilst é experiência reveladora. Pra ela, sexo é bom humor, brincadeira, jogo, sem qualquer fim em si mesmo. E o mundo dos desejos – o KamaLoka (do sânscrito Kama=desejo e Loka=mundo) – pode sim ser um terror. Que o digam seus personagens, que o diga, por exemplo, o narrador da tragédia homoerótica Rútilo Nada, para quem, como Hilda lembra, "sua paixão é uma doença mesmo, uma doença total". Porque Hilda, seja em seus amantes, seja em sua literatura, sempre buscou não o apego mas o amor, ou, em suas próprias palavras, Deus. O orgasmo, essa pequena morte, sempre mostrou ou seu vazio, se não havia amor, ou seu distanciamento em relação ao amante, se só havia busca.

Hilda não hesitava em dizer ao excitado marido: “Vai foder com a empregada! Me deixe escrever!” E ri quando me diz que homem que gosta de mulher por cima é afrescalhado. Para horror das feministas, Hilda acha que o homem deve dominar a relação, deve – e cita Simone de Beauvoir – ser, de alguma forma, superior à mulher. Afirma que sempre buscou homens que possuíssem um destes atributos da divindade: poder ou beleza. Poder financeiro, poder intelectual, e até força bruta, a faziam sentir-se mais mulher. Beleza porque – como dizia Vinícius, aliás, ex-namorado de Hilda – é fundamental.
_______________________


* Trecho de O Caderno Rosa de Lori Lamby

“Eu tenho que continuar a minha história e vou pedir depois pro tio Lalau se ele não quer pôr o meu caderno na máquina dele, pra ficar livro mesmo. Eu contei pro papi que gosto muito de ser lambida, mas parece que ele nem me escutou, e se eu pudesse eu ficava muito tempo na minha caminha com as pernas abertas mas parece que não pode porque faz mal, e porque tem isso da hora. É só uma hora, quando é mais, a gente ganha mais dinheiro, mas não é todo mundo que tem tanto dinheiro assim pra lamber. O moço falou que quando ele voltar vai trazer umas meias furadinhas pretas pra eu botar. Eu pedi pra ele trazer meias cor-de-rosa porque eu gosto muito de cor-de-rosa e se ele trazer eu disse que vou lamber o piupiu dele bastante tempo, mesmo sem chocolate. Ele disse que eu era uma putinha muito linda. Ele quis também que eu voltasse pra cama outra vez, mas já tinha passado uma hora e tem uma campainha quando a gente fica mais de uma hora no quarto. Aí ele só pediu pra dar um beijo no meu buraquinho lá atrás, eu deixei, ele pôs a língua no meu buraquinho e eu não queria que ele tirasse a língua, mas a campainha tocou de novo.”


(Artigo publicado originalmente na Revista da MTV.)


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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano "exilado" em Goiânia. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e, após residir durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster), trabalha hoje como roteirista e diretor. Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que, além de receber o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN, foi convidado para participar do festival "No Siesta, Fiesta!" (2009), em Tromsø, Noruega. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e Olho de Vidro (Sertão Filmes).
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