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Pobres e Ricos PDF Imprimir E-mail
Por José Nivaldo Cordeiro   
14 de abril de 2005

Um dileto amigo liberal mandou-me por e-mail o artigo da lavra de Cristovam Buarque, professor da Universidade de Brasília, que foi eleito no passado para ser o governador do Distrito Federal, tendo sido derrotado pelo atual governador Joaquim Roriz. O título do artigo é “A desordem do progresso”, tendo o mesmo sido publicado originalmente em 12/12/2001, na página de Opinião do jornal O Globo. Esse artigo é especialmente interessante pela forma hiperbólica de abordar a realidade econômica, um caso exemplar de argumentação erística, verdadeira falsificação da realidade.

Direto ao ponto: a causa da pobreza no Brasil, bem como da aberrante concentração de renda aqui verificada, não é a existência de pessoas ricas, como quer fazer crer Cristovam Buarque no infeliz artigo. Ao contrário. Reputo como causa única dos dois males a exorbitância estatal, por três motivos fundamentais: 1- O Estado brasileiro toma mais de um terço do PIB na forma de impostos, deprimindo a formação da poupança macroeconômica e, assim, determinando que o volume de investimentos fique em nível abaixo da necessidade de geração de empregos. A pobreza mais abjeta vem do desemprego provocado pelo Estado; 2-O Estado regulamenta demais a atividade econômica, inibindo a formação de novas empresas, essenciais para a geração de empregos; e 3: O Estado tomou para si quase que o monopólio do endividamento, impedindo que o setor privado possa usar o sistema de crédito para gerar riquezas. Absorve, por essa forma, parte importante da poupança nacional.

Como escrevi em artigos anteriores, o Estado brasileiro é, simultaneamente, o Grande Roubador (via impostos) e o Grande Devedor (autor da dívida bilionária e crescente, que ameaça o futuro da Nação).

Mas o Cristovam não vê assim. Como bom socialista gosta mesmo é de usar afirmações retóricas, como segue:

“Em nenhum outro país os ricos demonstram mais ostentação que no Brasil”.

Afirma sem provar. Quem viajou o mundo sabe que a proximidade entre as classes sociais nunca foi tão grande como aqui, a ponto de o Brasil ter-se tornado um país marcadamente mestiço. A nossa elite nunca assumiu uma aura de casta apartada, como nos EUA e na velha Europa, em que a burguesia procurou adotar os trejeitos da nobreza de sangue. Afirmou e não provou. Essa tese contraria a fatos registrados em nossa história.

Afirmou: “Os ricos brasileiros usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece (sic), mas vivem encalacrados na pobreza social”.

Ora, haveria um modo alternativo de usufruir a riqueza que não privadamente? Mesmo a pobreza é algo privado. Como frisei acima, a tal “pobreza social” é produto exclusivo da exorbitância estatal e os ricos não podem ser responsabilizados por ela.

“Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo... Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que as riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.”

Essa é uma das simplificações mais estúpidas que alguém poderia fazer no que se refere à segurança pública. A segurança pública é um atributo exclusivo do Estado, que aqui falhou dramaticamente, deixando o país na iminência de uma convulsão social. E não apenas os ricos têm medo; os pobres mais ainda o têm. Retirar do Estado uma responsabilidade exclusiva sua e jogá-la sobre os ricos é de uma mendacidade só, um argumento sofístico primário. E a desigualdade é produzida pelo Estado, que gera dois tipos de cidadãos. De um lado, os pagadores de impostos, ricos e pobres, que são esfolados. Do outro, os clientes do Estado, que recebem renda. Começa na casta dos funcionários públicos e suas aposentadorias imorais, passando pelos fornecedores do Estado e pelos portadores dos títulos da dívida pública. Toma-se mais de um terço do PIB para ser distribuído aleatoriamente pela clientela – Cristovam diria politicamente – em prejuízo da coletividade, na prática insana da verdadeira injustiça social. É para esse bolo dos usufrutuários dos jardins das delícias do gasto público orgiástico que os recursos da poupança nacional vão. É aqui que ela é minguada, impedindo o desenvolvimento econômico.

“Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo”.

Outra pérola da argumentação erística. Aqui ele confunde os ricos com o Estado, quando sabemos que, por décadas, já temos governantes socialistas e populistas (para mim, sinônimos) nas diferentes esferas de governo. O Estado está na mão da nomenklatura socialista, da qual Cristovam é um dos sacerdotes mais destacados. Aqui a mentira é curta e grossa.

“Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos, com o dinheiro de colocar água e esgotos nas cidades”.

De novo, a mentira curta e grossa a confundir ricos com governantes. Todos sabem que a construção de viadutos tem sido atributo dos governos no Brasil. Água e esgoto também. A causa fundamental de sua carência não ter sido ainda superada é a existência do monopólio estatal no setor. Mente aqui duplamente.

O que espanta é que argumentações mendazes como essa passem por verdade e não sofram contestação. A pobreza aqui não é dos ricos, mas do autor, que falta com a verdade.



Nivaldo Cordeiro
O autor é economista e mestre em Administração de Empresas
pela FGV - SP

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Sobre o autor...
Yuri Vieira, 35, é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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