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Mazzaropi e cinema nacional PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
02 de agosto de 2002


Mazzaropi

Assisti, dia desses, a uma série de reportagens sobre o Mazzaropi: fiquei fã. Não, não de seus filmes, dos quais, aliás, nunca vi um inteiro, mas de seu espírito empreendedor. (Bem que eu gostaria de ter uma pitada desse espírito.) Mazzaropi, após o final da Vera Cruz em 1954 - que não durou mais de quatro anos - decidiu jamais abandonar o cinema. Em 1958 criou sua própria produtora, a PAM, e emendou um filme após o outro - produzindo, dirigindo e atuando - até 1980 (morreu em 81). Os críticos não o perdoavam. Mazzaropi respondia (cito de memória): "Dizem que meus filmes não ganham prêmios, que são ruins. Bom, desde o princípio decidi fazer cinema popular... E isso não apenas por ter vindo do circo e do rádio, mas porque meus funcionários precisam ganhar dinheiro para viver e não prêmios. Sem falar nos equipamentos que são caros. E meu público gosta dos meus filmes, ainda não fui abandonado". Mazzaropi aprendeu na Vera Cruz que, para conseguir um bom número de profissionais do ramo, é preciso antes de mais nada que exista uma indústria de cinema na qual possam trabalhar e aprender seu ofício. Cinema se aprende fazendo, não numa sala de aula. E uma indústria só existe se houver um empresário investindo seu tempo e seu dinheiro nela, não basta ser um diretor vivendo às custas de leis de incentivo. (O que, aliás, seria impossível.) E Mazzaropi foi, antes de tudo, um empresário cheio de tino comercial, um homem enérgico que não apenas acreditava poder mas que vivia do e para o cinema. Seus antigos colaboradores comentam, em entrevistas, a transformação que rolava quando o "humirdi" caipira da cena se tornava um general atrás das câmeras. Minha admiração por ele aumenta cada vez que me deparo com os mil e um empecilhos que se interpõem à realização de um filme cujo roteiro escrevi: "Estou de Olho - Eye am the I". Não bastasse ter sido escrito em 1999 - ainda não saiu! - trata-se apenas de um curta-metragem. E tudo por quê? Porque ainda insistimos em levar adiante a necessidade do maledeto apoio estatal. O projeto já foi aprovado, mas é preciso que passemos a extorquir - com uma carta branca do governo - o dinheiro das empresas. Como é difícil para mim engolir essa nossa "realidade cultural", esse Robin Hoodismo artístico. Mas infelizmente já não sou empresário, sou escritor. Escrever roteiros é apenas mais um lado desse caminho. (E eu tinha logo que escrever uma história cara, com efeitos especiais...)

Mazzaropi

Numa entrevista, Woody Allen - sim, Woody Allen, não o Mazza - afirma que conheceu muitos produtores que ficaram ricos da noite pro dia. Tudo porque investiram cem mil dólares num filme e lucraram dez milhões. Seria isto possível no Brasil? Alguém que apostasse num filme não para evitar pagar impostos ao governo, mas porque espera algum lucro? E seria possível distribuir esse filme? Bem, enquanto acreditarmos que a política é a solução de todos os nossos problemas, a resposta será: NÃO. Porque, num país em que se paga tantos impostos, quem é capaz de poupar dinheiro? Quem consegue juntar uma grana para depois escolher esse tipo de investimento?


Ps.: Conheça o Museu Mazzaropi.

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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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