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Neste Natal, solte sua imaginação PDF Imprimir E-mail
Por yuri vieira   
24 de dezembro de 2001


Atualmente, Tolkien está na moda. Senhor dos anéis isto, Senhor dos anéis aquilo. O que pouca gente sabe é que ele, quando professor em Oxford, participou da conversão do escritor C.S.Lewis, seu colega, à crença no Cristo. Para ele, Tolkien, apenas uma pessoa desprovida de imaginação não poderia conceber a visita de um representante do Criador a este mundo. A cuca do C.S.Lewis ficou com este grilo por muito tempo. Afinal, nada pior, para um escritor, do que ter sua capacidade imaginativa colocada em questão. Mas o tal grilo ficou ali apenas até ser tocado pelo Espírito da Coisa. Quando a Coisa vem, sai de baixo.

O texto abaixo, resumo das maluquices que ando lendo, ouvindo e até vendo por aí, pede para que você se coloque não no lugar do papai-noel - e sua angústia sedexiana de entregar tantos presentes em 24 horas - mas no lugar do verdadeiro aniversariante.

"Ouh! Djísus!!"
ou
"De onde viemos e para onde vamos..."


(I)

Primeiro tu não és, não existes. Depois TCHUNS!, tu surges. É fato tão estranho e súbito que tu não tens sequer certeza se antes tu realmente não possuías, como diria Heidegger, uma pre-sença. Aí o Figura olha para ti, te mede de cima a baixo e, por fim, conclui que fez um ótimo trabalho. Chega a sorrir de felicidade. Isto te dá uma paz, uma segurança, uma alegria infinita. E Ele, o Três-em-Um, te mostra, então, a perfeição de Sua Obra, o Universo Mestre, o Modelo Universal.

Ele: e tu? também queres Criar?

Você: assim como Vós?? nossa, seria fantástico!

Após te abrir um incrível leque de opções, tu decides partir para o Sétimo Super-Universo do Espaço-Tempo. Sim, pois, no Além do Espaço-Tempo - no Universo Mestre ou Central -, Ele e Seus dois Iguais já deram conta do serviço. Acompanhado por vários e vários auxiliares de diversas classes de manifestação do ser - incluindo tua Consorte Divina - tu delimitas uma área que, assim como outras 99.999 áreas desse mesmo Super-Universo, estava destinada a um Filho-Criador, neste caso, tu! Em teus domínios, são criadas, num único instante, algumas Esferas-Arquitetônicas, ou seja, os incomparáveis planetas com incumbência de serem as capitais das diversas subdivisões de teu Universo-Local: capitais das Constelações, dos Sistemas-de-Mundos-Habitados (não confundir com os sistemas solares isolados e seus respectivos planetas) e, claro, a capital do Universo-Local propriamente dito. Finalizada essa etapa, digamos, não-evolucionária, tu partes para a lenta Criação dos Mundos do Tempo. Tudo, evidentemente, é interconectado, energizado e mantido com a ajuda imprescindível do teu sogro, o Espírito-Infinito, um daqueles Iguais, o qual não é senão uma inteligente, supraconsciente, todo-poderosa e perfeita rede - ou teia(web), se achar melhor - de Amor e Vida. Tu, pois, elaboras, assistes e coordenas todo um processo do qual surgem super-novas, sóis e planetas, que, sem saltos temporais, darão, num "dia universal" qualquer, oportunidade à manifestação de vida autoconsciente. Isto, como tu sabes, faz parte do mesmo plano para o qual vivem aproximadamente outros 700.000 Filhos-Criadores, teus iguais, todos espalhados pelos sete Super-Universos. Sim, o mesmo plano, mas cada qual realizado segundo a personalidade do seu criador, segundo sua "visão de universo". Eis tua Liberdade, eis tua Vida, eis teu Amor. Quem - seja lá em que esquina cósmica - já criou algo, sabe o que tu agora sentes. Mesmo um escritorzinho fodido e mal pago dum planetinha provinciano sabe que grandes escritores, embora se dediquem ao mesmo plano de escrever "o livro", escrevem sempre algo único, pessoal. É o que tu, num nível infinitamente superior, fazes.


(II)


Um dia, tu recebes de um Portador-de-Vida uma tremenda notícia: "amado Senhor, no planeta X, do Sistema-de-Mundos Z9, da Constelação Beta, detectamos um indivíduo com mente autoconsciente, evoluído, por mutação súbita, da forma de vida animal chamada erkth". Tu te comoves. Desde o surgimento das primeiras formas unicelulares de vida, tua equipe se dedica a estimular esse acontecimento: o nascimento de um ser que te é semelhante, ao mesmo tempo teu filho e teu irmão, uma personalidade evolucionária, um peregrino do Espaço-Tempo com destino à Eternidade, à Fonte de todas as coisas. Tu, então, te diriges ao Criador-Supremo: "Vida da minha alma, obrigado por abençoar meu Universo-Local! Obrigado por decidir habitar a Mente dos nossos filhos!" Ele te responde com O ABRAÇO.

A partir daí, há um desencadeamento alucinante de vidas autoconscientes - dos mais diversos tipos - em inumeráveis planetas do teu Universo. Seres evoluídos de formas animais autóctones vêm à tona feito pipocas. Tu te deslumbras.


Com o correr do Tempo, grupos de Humanos - assim se chamam as criaturas evolucionárias - começam a organizar-se nos mais recônditos planetas, condicionados, é claro, pelas situações locais. Ainda surdos e cegos à presença do Monitor Divino em suas mentes materiais, muitos se deixam levar por sua herança animal, por suas diferenças e pelo medo, armando os mais estúpidos conflitos, as mais ignóbeis escaramuças. Mais adiante, os grupos tornam-se mais complexos, mais... humanos. E a evolução biológica atinge seu auge. É chegado então o momento em que, com autorização do Soberano do Sistema-de-Mundos-Habitados, chega a este ou àquele planeta um Príncipe Planetário, acompanhado por seu séquito. Juntos, e com o auxílio de grupos locais receptivos, constroem uma Cidade Modelo, um centro de ciência e cultura para onde se dirigem os jovens dos mais diversos povos, raças e tribos, a convite dos próprios mestres imortais. Gerações trás gerações são educadas pelos mesmos professores. O Príncipe, invisível aos olhos materiais imaturos, coordena a tudo dos bastidores astrais e, aos poucos, prepara-se para a chegada do Casal Adâmico, futuros governantes planetários. (De onde pensam os terráqueos que vieram seus mitos?)


(III)


Enquanto isso, tu, Filho-Criador do Universo, inicias tua carreira experiencial. É um pré-requisito para atingir a soberania sobre teu domínio. Até então, tu és monitorado pelos senhores do Super-Universo, os Anciãos dos Dias, e, portanto, não possuis, digamos, moral para coordenar o destino comum das criaturas. Mas agora chegou a chance de provar da tua própria criação, demonstrando, assim, tua origem na Perfeição. Enquanto, nós, Peregrinos do Tempo, vamos através da experiência em direção a essa Perfeição, você vem no sentido inverso: da Eternidade para a experiência temporal. Logo, de tempos em tempos, tu "desapareces" da capital do Universo e reapareces noutra parte, sob outra identidade, manifestado como outra classe de ser. Sim, são necessárias sete experiências desse tipo, sete efusões, sete papéis diferentes daquele que te coube por fado. E, até o momento, tu os tens desempenhado divinamente.


Este Universo jamais esquecerá: antes de que tu termines todas as tuas efusões, Phosphoros, o Soberano do Sistema-de-Mundos chamado Satânia, divulga, em assembléia na sua Esfera-Arquitetônica (Jerusem), sua Declaração de Liberdade. Sim, ele já não quer submeter-se às Leis do Universo e do Super-Universo, pois acredita que a evolução deveria ser acelerada, imposta por decreto aos Mundos do Espaço-Tempo, ainda que às custas dos mais fracos e despreparados. Para ele, isto seria um ato de amor às criaturas em geral, as quais ficariam liberadas da influência de "estrangeiros" (os Anciãos dos Dias) e da "tirania" do Filho Criador local, que estaria fundamentando seu poder numa "ficção": o contato pessoal com o Pai Universal. No entanto, não alcança enxergar a contradição de sua idéia: sua liberdade para interferir na evolução dos Peregrinos do Tempo vai contra a liberdade de cada um destes, os quais devem ascender segundo seus méritos individuais. O Universo é para o indivíduo e não para a coletividade, não para a massa que segue arbítrios de um líder qualquer. (Qualquer semelhança com Star Wars talvez não seja mera coincidência.) Antes que tal rebelião ultrapasse os limites do Sistema de Satânia, os Altíssimos da Constelação de Norlatiadec - sim, pois tu estás ocupado em uma de tuas efusões - fazem o que esse Darth Vader tanto deseja: liberam-no do restante do Universo, desconectando-o dos mandatos e, conseqüentemente, das vantagens mais ostensivas da web do Espírito-Infinito. Ou seja, o Sistema de Satânia torna-se uma "Cuba cósmica": sem comunicações, sem transporte, sem intercâmbio visivel. Desprovidos dessas prerrogativas (inclusive a perda da imortalidade material por parte dos membros rebeldes de seus séquitos), ilhados, os Príncipes Planetários de diversos Mundos tomam um desses dois caminhos: aderir ou não à rebelião de Phosphoros, à rebelião de Lúcifer. Muitos membros dos séquitos permanecem fiéis à Palavra dada antes de embarcar na aventura de Servir à evolução. Outros, sentindo-se traídos, aderem à Declaração de Liberdade. Alguns casais Adâmicos aportam em planetas totalmente desconectados, sem a mínima infra-estrutura. De tão atrapalhados, cometem sérios erros. É um pega pra capar, já que em muitos Mundos a coisa ainda segue preta. Aliás, quem melhor do que tu para dizer isso?


(IV)

Sim, querido Filho-Criador deste Universo-Local, chega, pois, tua última efusão: é preciso experimentar a vida como um ser material - o primeiro passo na vida imortal de um Peregrino do Tempo. Para tanto, tu, que não és bobo, que és amoroso, escolhes um dos planetas de Satânia, um planeta isolado pela rebelião conhecido como Terra. Nele tu podes matar dois coelhos com uma só cajadada: adquirir sua soberania universal e levar a boa notícia de que somos imortais, de que não estamos sozinhos no cosmos, pois "no reino de meu Pai existem muitas moradas"... O povo da Terra - que há muito perdeu a memória de suas origens, de seus irmãos "que vêm do Céu" - precisa ter ao menos um povo Monoteísta para receber-te, caro Filho-Criador, do contrário jamais te entenderiam. E esse povo é o povo judeu. Séculos e séculos de preparação foram necessários. E tu finalmente nasces como uma criança comum, como um Peregrino do Tempo em sua fase mortal. Tu cresces normalmente, brincas, estudas, trabalhas, viajas, pregas, sempre com a convicção de que é preciso "fazer a vontade do Pai", de que é possível ser perfeito num corpo animal. Na capital da Constelação de Norlatiadec, no anfiteatro existente ao redor do Mar de Cristal, mais de 3 bilhões de espectadores assistem, ao vivo, a vários flashes de tua experiência terrestre. O mesmo ocorre em diversas outras Esferas Arquitetônicas. É um júbilo indescritível assistir a esse... Big Brother. O que ninguém espera é que tu, pouco depois, vais partir desse planetinha lindo e louco de um jeito tão tenebroso. Naquele mesmo anfiteatro, o silêncio atônito desses mais de 3 bilhões de seres diante das transmissões universais, mostrando teu calvário, é impressionante. "Pobres terráqueos", ouve-se aqui e ali, "se soubessem o que estão fazendo..." (Alguns locais ainda acreditam no Criador como uma espécie de sádico demente capaz de sacrificar o próprio filho por amor. Por amor, imagine! E tua missão, ironicamente, era apenas a de viver e morrer como um humano normal, sem abusar de superpoderes, sem encarnar o salvador desta ou daquela nação ou povo. Teu reino vai muito além deste mundo...)


(V)


Hoje, Djísus, tu és Soberano, foste perfeito em meio à maior imperfeição, deste o maior exemplo de caráter, coragem e fé jamais vistos por essas bandas super-universais. E ainda convives com inumeráveis mestres, sem fazer alarde de teu próprio Poder. Teu Governo é tão presente, que ninguém o nota. Como bem lembra o Tao te Ching, o melhor governo é mesmo aquele que não aparece. Claro, tu também prometeste voltar, não apenas em espírito, como já o fizeste, mas em Pessoa. Parece que dentro de uns mil anos, talvez dois mil, pouco importa. Dizem que o mestre só aparece quando o discípulo está pronto. E a galera por aqui anda meio devagar. Pelo menos, já que o Sistema está a normalizar-se, a tendência agora é a reconexão. Fernando Pessoa, em sua Mensagem, escreveu: "Deus quis que a Terra fosse toda uma, que o mar unisse já não separasse". Pois esta fase da reconexão já passou. O Novo Mundo já está velho. Agora todo o planeta é um índio fitando o horizonte. Aparecerão caravelas? Estamos esperando. A ti e a nossos irmãos do cosmos infinito. (Que eles depois não saiam dizendo por aí que descobriram a Terra, querendo nos colonizar, ouviste? Tu sabes muito bem que nós já existimos.)


(VI)


E agora, Amigo, gostaria de te desejar feliz aniversário. Segundo consta, tu nasceste no dia 21 de Agosto de 7 a.c. (Engraçado, não?, sete anos antes de tu mesmo.) Mas pouco importa. A Igreja Católica - aproveitando-se das Saturnais romanas e das festividades do mitraísmo, que clamavam pelo retorno do SOL -, instituíram no dia 25 de Dezembro o seu dia. Então esta é a oportunidade de homenagear-te por aqui. Que sejas feliz cada vez mais com tua DIVINA CRIAÇÃO. CRIAR É VIVER. TEMPO É ARTE.


(VII)


Já que tu, Djísus, e o Três-em-Um gostam tanto do número sete, chego até aqui. Abração procêis, véios divinos!!! (Eita povo antigo, esse povo eterno...)E Feliz Natal para você, leitor, que chegou até aqui!!!


(Mensagem enviada a meus amigos em 24/12/2001.)

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Sobre o autor...
Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e residiu durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster). Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, que recebeu o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN. É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e O Expressionista, além de editar o blog coletivo O Garganta de Fogo.
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