No segundo semestre de 1995, eu cursava desenho com o excelente Sérgio Rizzo - na minha opinião, o melhor professor do departamento de Artes Plásticas da UnB - quando, para meu desespero, ele "encomendou" uma série de exercícios de escorço para a segunda-feira seguinte. Claro que, em plena quinta-feira, ele não pôde deixar de dar sua famigerada risada de deboxe. Caramba, eu precisava terminar os contos que enviaria a um concurso! E eu, sem muito jeito pra desenhar, certamente levaria séculos pra terminar o serviço... Bom, acontece que, como sempre, acabei deixando tudo pra última hora, pro final de semana. Sim, estava certo de que daria tempo de fazer tudo. E, então, todo zen, escrevi, fui ao cinema, ao Beirute, às festinhas, àquelas coisas de praxe. O problema é que, já no sábado à noite, sozinho no meu apê, mal abri o bloco de papel jornal, fui ouvindo batidas à porta: era minha gatíssima ex-namorada!!... Ma che desenho che nada!, pensei... Obviamente, ela só se mandou no já avançado domingo. Por fim, na manhã de segunda-feira, acordei mais cedo - afinal eu precisava manter o respeito que eu e o Sérgio tínhamos um pelo outro - e escrevi, em vinte minutos de muito suor, o seguinte Soneto de Desculpas pelo Trabalho Incompleto:
Muito tempo tive para desenhar
Mas por me enlouquecer toda palavra
Ponho-me a trabalhar como quem lavra
Somente quando estou eu a escrevinhar.
Então, para o fim de semana deixei
Todo aquele trabalho de desenho
Para o qual bem pouco talento tenho
Apesar de que pela estética andei.
No sábado, porém, a porta abriu-se
E ela entrou, surgida da distância
Sorriu, perguntou da vida e despiu-se.
Olhei-a, ri, afastei o escorço
Segui-a, dominado - com que ânsia!
"Prima a anatomia sem esforço!"
* * *
Claro que o Sérgio, já meu amigo, deu muita risada. |