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Neste conto, a vida de um CDF é abalada após a universidade ser privatizada e comprada pela Disney.
"Papai, por que meu nome é um nome brasileiro?", perguntou Marco Aurélio.
"Seu nome não é brasileiro. É romano. Foi o nome de um imperador romano."
"Aaaah..."
Foi a primeira vez que Marco Aurélio
sentiu que seu destino seria glorioso. Tinha três anos de idade e havia
recentemente se mudado, com os pais adotivos, para o Brasil. Era
marroquino. Mas a mãe era canadense e o pai alemão. A globalização em
termos domésticos.
Aos quatro anos, quando transformou um
forno de microondas estragado num secador de cabelo, Marco Aurélio
tornou notória a inclinação de seu gênio pelo campo da tecnologia.
Tornou-se, no colégio, um renomado c.d.f. Durante as provas de física e
matemática, metade dos colegas sentava-se atrás de sua carteira. Para
colar. Os demais eram pisoteados na tentativa de uma maior aproximação.
"Marco Aurélio, por que você está deitado sobre a prova?", perguntava a professora.
"Não dou cola! Não dou cola!", ele berrava.
Quase não saia na rua. Não tinha amigos.
Sua única distração eram os computadores e os vídeo-games. Uma vez, aos
treze anos, conseguiu interligar um Atari, um Telejogo e um Mega Drive.
Conseguiu, assim, colocar o Pac-Man pra jogar tênis com os lutadores do
Street Fighter. De tão recluso, permaneceu virgem até os vinte e oito
anos, quando arranjou um encontro com uma garota de doze anos que
conhecera num chat da internet.
"Marco Aurélio, é você que tem que usar essa camisinha."
"Ah..."
Ainda aos dezesseis anos, quando
terminou o segundo grau, conseguiu ser um dos únicos quinze estudantes,
de todo o mundo, a ganhar uma bolsa de iniciação científica da Nasa. Os
primeiros elefantes a pisar no solo marciano usavam trajes espaciais
desenvolvidos por ele.
Marco Aurélio graduou-se em ciência da
computação e em engenharia eletrônica. Resolveu tornar-se um
pesquisador e seguir a vida acadêmica. Ingressou, portanto, na
Universidade de Brasília onde pretendia obter o grau de mestre. Sua
tese de mestrado discorreria sobre a inteligência artificial e as
incríveis conseqüências da evolução técnica neste campo. Queria provar
como o computador, ao tornar-se tão evoluído e complexo, podia mentir
em seus dados e resultados, pelo simples e pícaro prazer de sacanear o
usuário. Podia, também, para poder tirar uma folga voluntária, alegar
uma falha técnica. Era a cyber-malandragem.
Mas a vida de Marco Aurélio sofreu uma
reviravolta repentina. O governo brasileiro privatizou suas
universidades públicas e a UnB foi comprada pela Disney. Não que Marco
Aurélio não pudesse pagar as despesas do curso. Além de possuir uma
bolsa de mestrado, seu pai era muito rico. O problema foi a biblioteca.
Por ser um tradicional ponto de encontro dos estudantes, decidiram
transformá-la num misto de castelo da Cinderela e área de lazer de
shopping center. Claro, e também de biblioteca. Marco Aurélio já não
conseguia estudar naquele lugar. Aquilo era um inferno. Quando
inauguraram a pista de patinação no gelo, no subsolo, em frente aos
banheiros, ao xerox e ao Mac Donald's, estudar ali tornou-se
impossível. Quando alguém se esborrachava no gelo, as vaias e gritos
ecoavam por toda a biblioteca. Marco Aurélio precisava tomar uma
providência. Seria necessário recorrer a outros seres humanos. Que
horror!
Ele encontrou os aliados ideais no grupo
de estudantes de artes cênicas conhecido como O Teatro Terrorista. Eram
recalcitrantes natos. Após elaborarem um eficiente plano estratégico,
invadiram a biblioteca. Mas não deu certo. O grupo uniu-se à balbúrdia
geral.
"Ih!! Caiu! Uuuuh...", gritavam à beira da pista de patinação.
Marco Aurélio entrou num conflito
íntimo. Aquele grupo de protesto apenas tornara especializado todo o
caos reinante. Aquilo era um paradoxo. Era como matar alguém porque
esse alguém matou alguém. Era como encher um computador com programas
complexos de difícil entendimento para realizar tarefas simples. Este
seria, futuramente, o tema da sua tese de doutorado, a qual entraria
para história com o pomposo nome de O Paradoxo Primordial de Marco
Aurélio.
Logo, Marco Aurélio desistiu. Entrou em
depressão. Já estava preste a abandonar a vida acadêmica quando, então,
numa árida segunda-feira, deparou-se, no acervo geral da biblioteca,
com um conjunto de máquinas que o eletrizaram. Eram consoles de
vídeo-game para realidade virtual desenvolvidos pela Silicon Graphics.
Marco Aurélio escolheu um jogo de guerra na lua. Era algo sobre
astronautas em luta com vacas-loucas mutantes vitimadas pelo césio-137
de Goiânia. Marco Aurélio colocou a data-roupa, as data-luvas e o
data-capacete. Depois saiu com uma data-metralhadora atirando em
inimigos virtuais, perseguindo vacas. Corria freneticamente pelo acervo
geral, gritando, derrubando mesas, livros e outros alunos.
"Ô panaca, tem gente querendo estudar!"
"Alguém joga um livrão nesse desgraçado!"
Mas não adiantava. Marco Aurélio já não ouvia. Estava no mundo da lua.
(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do
Terceiro Grau.)
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